Título: Chuva Oblíqua
Data da publicação original : 26/11/2009
Olá!
Hoje, deixo um poema do mestre Pessoa, por ele mesmo.
Texto para se pensar a vida na sociedade moderna.
Chuva Oblíqua (Fernando Pessoa)
II
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
Lemos o poema de Fernando Pessoa e podemos perceber as várias metáforas em seus versos. Podemos começar pelo título: Chuva Oblíqua.
Não é qualquer chuva, e sim, uma chuva oblíqua, chuva que não cai reto, não cai simplesmente. É uma chuva que causa efeito. O título já aparece como grande metáfora. Já que Oblíqua possui um leque de sentidos, não somente o literal de torcido, diagonal.
“Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia”
– A igreja, no verso, está dentro da chuva. Como é possível? Na linguagem metafórica é o que está dito. São dois elementos inseparáveis, um contendo o outro. Para entender essa proposição e outras que aparecem durante todo o poema, vamos partir do macro para o micro. Vamos tentar desvendar a grande metáfora do texto e depois, como cada metáfora menor a constroem.
Durante todo o poema temos a chuva, a rua, o barulho fora da igreja “junto” com as cenas internas da igreja. Os versos são construídos não por oposição, mas por complementação. Um é parte do outro. Um elemento é o outro. “A missa é um automóvel que passa”.
Como grande metáfora, podemos dizer que tudo acontece ao mesmo tempo e não há possibilidade de termos uma experiência de cada vez. Sentimos, ouvimos e vemos tudo ao mesmo tempo. Estamos no mundo e dele participamos. O poeta quer fazer com que sintamos todas essas sensações conscientemente.
A missa é a missa, os carros fora da igreja são os carros e a chuva é a chuva. Mas tudo acontece ao mesmo tempo, as paredes da igreja não evita que sintamos a chuva, pois se a ouvimos, ela está presente. O poeta quebra as barreiras pela metáfora. Vamos agora às pequenas metáforas.
“Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia”
– Quando as luzes da igreja se acendem, há chuva. Chove enquanto os fiéis se preparam para rezar. A chuva está dentro da igreja, pois é ouvida. Portanto, a igreja está dentro da chuva.
“E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça”
– mais velas acesas, mais chuva.
“Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso”
– Agora aparece um verbo de ligação, típico da metáfora. Dizer que a chuva é o templo estar aceso é uma metáfora explícita. Enquanto chove eles estão dentro da igreja e por isso está acesa.
“E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro”
– Aqui, as barreiras são quebradas. A chuva penetra na igreja e por fora vê-se a igreja. Quem está dentro sente a chuva pelo som. Não há isolamento. O poeta argumenta com força ao propor que não existem barreiras. De novo a metáfora explícita.
“O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...”
- Mais sensações são misturadas nesses versos. Misturam-se imagens, sensações e sons. Os elementos não são puros. Estão misturados. Ouve-se a missa e o vento que sacode a vidraça. Ouve-se o chiar da água e o coro. Vê-se a chuva e o altar.
“A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste..”
- O automóvel, por seu barulho, penetra na igreja e atravessa os fiéis que se confessam. O automóvel está fora e dentro da igreja.
“Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...”
- A voz do padre, o som do automóvel e o barulho da água se confundem. Estão todos juntos.
“E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...”
- A chuva cessa e as luzes se apagam. Um não depende do outro. Os dois acontecem simultaneamente.
Não há barreiras entre o interno e externo. As sensações são múltiplas e permitem uma leitura da sociedade contemporânea com tudo misturado. O progresso tecnológico cuja violência invade nossa vida, nossa privacidade e nossa paz transforma-nos em seres que ao sentirem tantas emoções simultaneamente não "sentem nada" ou não sabem o que sentem.
Obrigado pela visita e pelos comentários.
"ENXERGAR O COMUM É MUITO INCOMUM PARA OS SERES COMUNS."
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