terça-feira, 12 de dezembro de 2023

ASSÉDIO MORAL NAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS

         No buscador da internet, escrevendo "assédio moral pós-graduação Brasil", mais de 400.000 resultados surgem na tela do dispositivo. Resultados distribuídos em portais, blogs, revistas científicas, teses de doutorado, vídeos e notícias de jornal. O número elevado assusta menos do que o conteúdo desses resultados, pois há uma grande discussão acerca desse crime cuja prevenção e punição estão longe de serem satisfatórias.

É um assunto que deveria ser mais discutido abertamente nas universidades brasileiras, já que a maior parte dos casos de assédio não são denunciados. Este artigo está dividido em quatro partes: a) o que pode ser caracterizado assédio moral; b) poder e dominância durante o assédio; c) efeitos do assédio nos discentes; e d) denúncia e medo.

 

Assédio Moral, Comportamentos e Constrangimentos

 

Há vários estudos sobre o que pode ser caracterizado como assédio moral. Algumas dessas pesquisam consideram assédio um número reduzido de ações, outros ampliam esse número. Há publicações que questionam a duração dos ataques para considerá-los crime. De qualquer modo, cada caso deve ser analisado com muito cuidado e responsabilidade. Pensar que tudo o que foge de uma relação sadia entre orientador e orientando pode ser encaixado como assédio.

Essa relação orientador-orientando, que se trata de um contato direto em cursos de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado) ou até mesmo na graduação (iniciação científica e TCC), estabelece uma proximidade e ao mesmo tempo dependência institucional do orientando para com o seu orientador. 

Dessa maneira, situações que levem constrangimento ao orientando como ameaças de reprovação e/ou perda da bolsa; levantar a voz; comentários depreciativos e/ou preconceituosos; tratamento discriminatório e excludente; rebaixamento da capacidade cognitiva; recusa em orientar; críticas diretas ao orientando e não ao trabalho; dar opiniões incisivas sobre a vida particular de quem está sendo orientado; e tudo que fragilize o psicológico do discente para o desenvolvimento do seu trabalho são ações que caracterizam assédio moral.

Em muitas vezes, atitudes como as descritas anteriormente não são vistas como assédio, mas como traço de personalidade do orientador, normalizando a atitude contraventora e não acontecendo a denúncia. Uma pesquisa desenvolvida por Bianca Spode Beltrame com 44 instituições federais de ensino superior no Brasil constatou que 70% delas não possuíam qualquer medida de combate ao assédio, em 2020 (Nascimento, 2023). Unindo o despreparo das universidades e o senso comum de que os orientadores "são desse jeito mesmo" elevam os casos de abuso de autoridade enquanto os dados estatísticos ficam defasados.

 

Poder Simbólico e Poder Real

 

No caso brasileiro, apenas uma ínfima parcela da população chega ao doutorado. Ainda em 2023, o Brasil apresenta o índice de aproximadamente 0,2% de doutores, que geralmente são pertencentes das camadas sociais mais abastadas. Mesmo com as políticas públicas na área educacional dos últimos 20 anos, a pós-graduação é, em sua maioria, ocupada por estudantes com maiores recursos financeiros.

Os professores universitários que atuam há mais de 20 anos nas universidades pertencem em número significativo a essa casta, o que representa também acesso aos poderes simbólicos que se instituem: o financeiro e o intelectual.

Com as bolsas aumentando e o país se desenvolvendo, além da construção de mais universidades a partir de 2003, o público da pós-graduação sofreu uma leve alteração, iniciando uma tímida diversificação nos discentes. Essa diversidade é ainda irrelevante, mas necessária para que mais pessoas que não tinham acesso à pós-graduação possam estudar e ampliar as pesquisas científicas brasileiras.

O poder simbólico (conceito de Pierre Bourdieu) instaura-se em torno dos orientadores, que são protegidos pela posição social que ocupam, o que incita muitas vezes, por meio da impunidade, atos de preconceito e exclusão daqueles que não pertencem à sua bolha social (seja cultural, racial, sexual e/ou financeira). Claro que não são todos os orientadores que agem dessa maneira criminosa, entretanto, o dado que apenas 6% dos casos de assédio foram punidos com a expulsão do docente é incômodo e gera muita insegurança aos discentes (Nascimento, 2023).

Desse modo, o poder real do orientador(a) é de tratar seus estudantes como ele(a) acha que eles devem ser tratados, de acordo com sua própria régua, poder que pode gerar um comportamento invasivo. Esses orientadores não são contidos devido à posição de privilégio que gozam na sociedade brasileira.

Os abusos devem ser denunciados para que esse poder seja desmantelado. Instituições de ensino não devem ser coniventes com essas atitudes, pois, não tendo medidas de proteção nem de punição, estão, de certa forma, permitindo a situação atual. Embora a porcentagem de punições seja baixa, o número de denúncias tem se multiplicado nos últimos anos (2020-2023), o que desperta uma esperança de mudança nesse cenário.

 

Efeitos nos alunos

 

Os efeitos danosos nos pesquisadores de mestrado e doutorado são diversos. Cada indivíduo pode reagir de uma forma peculiar diante do assédio moral, gerando reações muito violentas ou mais sutis. Em um artigo científico Nunes (2020) apresenta uma enquete com pós-graduandos e apresenta dados interessantes. A seguir, há um relato de um discente (Nunes, 2020, p. 226): 

 

“Quando as pessoas sabem meu posicionamento político, elas tendem a me agredir. No caso eu defendo um pensamento comunista dentro de um grupo de esquerda [....] Existe uma polarização, que eu vejo que gerou uma certa exclusão [...]. Neste caso eu me via sendo perseguido por essa professora, que não era orientadora, mas fazia parte do grupo de pesquisa. [...] Também teve um professor que me provocou nas aulas e no curso inteiro, de ficar mencionando obras que eu leio num tom pejorativo, criando a ideia de que o cara que lê isso aí é um idiota. [...]”.


 Todo ato que desmereça o discente e que possa gerar nele incômodo pode ser considerado assédio moral. No caso relatado, a postura política do discente estava sendo questionada de maneira a ridicularizá-lo por pensar daquela forma. O ponto não é o questionamento, porque o meio cientifico é o lugar da contestação das ideias, não dos indivíduos. O que houve foi o rebaixamento intelectual do discente, levando-o a se sentir “um idiota”.

Por ser um ambiente de vaidade, uma forma de assédio moral é desmerecer as conquistas individuais ou acadêmicas dos discentes como: publicações sem o orientador, no Brasil e no exterior; palestras e cursos ministrados fora do programa de pesquisa; viagens pelo Brasil ou ao exterior sem o auxílio do orientador ou do programa, por exemplo.

 Em outro artigo, são expostos dados dos efeitos nocivos nos discentes. Sobre as consequências do assédio moral nos estudos, os maiores índices foram: desilusão com o meio acadêmico - 18,2%; aumento da carga de trabalho (fazer mais do que devia) - 13,6%; vontade de desistir da pós-graduação - 13,6%; e queda na produtividade - 9,1% (Nunes; Torga, 2020, p. 16).

Já as consequências do assédio moral na saúde psíquica: raiva - 9,1%; ansiedade - 6,8%; baixa autoestima - 6,8%; choro - 6,8%; depressão - 6,8% (Nunes, Torga, 2020, p. 12). É possível perceber que esses efeitos graves irão interferir na vida do discente além do ambiente acadêmico.

 

Denúncia e Medo

 

Apesar desse aumento substancial de denúncias, sabe-se que é a menor parte das vítimas que denunciam seus orientadores. E os receios são reais. Desde o descrédito na denúncia, falta de provas concretas, medo de perder a bolsa e/ou não conseguir defender a dissertação / tese.

Bruna Rocha, discente do programa de pós-graduação em Desenvolvimento Rural e representante da Associação de Pós-Graduandos da UFRGS, combater o assédio é difícil por envolver a conivência de outros docentes com as práticas de seus colegas. “A pós-graduação é um ambiente tóxico. Ocorre muito assédio moral. A gente tem uma casta dentro da academia, cada programa é um feudo, em que acontece coisas de assédio moral e sexual em que o elo mais fraco são os alunos. E quando os alunos falam alguma coisa, isso acaba ficando dentro do programa”, explica (Nascimento, 2023).

Como o meio acadêmico brasileiro é muito restrito e “todos se conhecem”, o discente que fizer a denúncia teme ser ignorado por outros docentes e/ou universidades quando estiver em busca de novas oportunidades profissionais e acadêmicas. Não raro, muitos pesquisadores que teriam um bom rendimento desistem da pesquisa ou partem para outros países em busca de melhores colocações, pois não são os “escolhidos”, uma vez que se trata de “preferências pessoais”, muitas vezes, o que não deixa de ser assédio moral (exclusão), pois são jovens pesquisadores que nunca terão chances reais de progresso na carreira.

É premente a proteção contra o assédio moral (e também sexual) que é muito comum e pouco denunciado. As próprias universidades precisam criar uma comissão responsável apenas para tratar de denúncias, das vítimas e da punição dos orientadores. Essa comissão também deverá verificar se não há abusos também entre os professores, relações de chefia, por exemplo, o que também ocorrem.

Há muitos casos e a maioria não é denunciado, há perdas de bons profissionais, pessoas são humilhadas e outras humilham sem punição. Está na hora das universidades e dos pesquisadores brasileiros propiciarem um ambiente saudável e digno para o crescimento da ciência no Brasil.

 

Referências

 

COLETA, José Augusto Dela; MIRANDA, Henrique Carivaldo Neto de. O rebaixamento cognitivo, a agressão verbal e outros constrangimentos e humilhações: o assédio moral na educação superior. 2011.

 

NASCIMENTO, Fernanda. 70% das universidades federais no Brasil não têm qualquer medida de combate ao assédio. Portal Sul 21. 15 abr. 2023. Disponível em https://sul21.com.br/noticias/educacao/2023/04/70-das-universidades-federais-no-brasil-nao-tem-qualquer-medida-de-combate-ao-assedio/ Acesso em 07 dez. 2023.

 

NUNES, Thiago Soares. Vivências de assédio moral na pós-graduação: relatos de docentes e discentes. Revista Gestão e Secretariado (GeSec), São Paulo, SP, v. 11, n. 3, set/dez, 2020, p. 212-237.

 

NUNES, Tiago Soares; TORGA, Eliana. Márcia Martins Fittipaldi. Assédio moral na pós-graduação: As consequências vivenciadas por docentes e discentes de uma Universidade Estadual brasileira. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 28(11). https://doi.org/10.14507/epaa.28.4883 2020.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Nomenclaturas fantasmas

 Olá! Como estás?

Vamos falar um pouco sobre espantalhos.

Como tenho leitores do Brasil, Argentina, Galiza, Portugal, Espanha e Estados Unidos (até onde eu sei), tentarei adequar a discussão para que não fique só o foco no sistema esconômico do Brasil. Se leres o meu texto, coloca nos comentários de que país és. Agradecido. 


Não posso concordar em viver num mundo em que aproximadamente 10% da população do planeta passam fome (2022) e que 2,3 bilhões de pessoas (29,3% da população global), estavam em insegurança alimentar em 2021, de acordo com os dados da ONU News (2022). 

Não posso estar de acordo com um planeta que consome muito mais do que suporta por uma lógica (ou falta dela) consumista e prejudicial à nossa sobrevivência. De acordo com o portal Observador (2020), a população mundial consome mais recursos naturais do que aqueles que o planeta pode renovar. Esse consumo anual gira em torno de 1,75 planeta Terra, quase dois globos. O dobro do que poderíamos consumir. Embora tenhamos "inventado" maneiras de subjugar uns aos outros, de selecionar (de maneira artificial) quem tem conforto e quem não tem. O planeta, amiguinhos, é um só.

A partir desses dados iniciais (poderia buscar muitos outros como violência, desemprego, falta de moradia, falta de saneamento básico etc.), podemos observar os discursos correntes e toda uma burocracia para resolver o problema. Em verdade, se quisessem resolver a desigualdade, a fome, o desemprego, já o teriam feito. É que resolver esses problemas implicaria reformular a lógica vigente do acúmulo desenfreado de capital, a exploração da mão-de-obra, a segregação estrutural e todo um conjunto de privilégios de que muito poucos gozam. Tirar o poder de quem o detém, ou diminuí-lo na redução da exclusividade. 


Há debates acalorados que um sistema é melhor que o outro. Que o capitalismo liberal prega a verdadeira liberdade. Que o comunismo é equiparado ao nazismo. Que se um país capitalista adotar medidas para diminuir as desigualdades, os bens das pessoas seriam confiscados. Tudo isso não passa de espantalhos. Pessoas desinformadas que passam informações errôneas para outras pessoas desinformadas. Mensagens cujo conteúdo versa sobre a destruição de um país, onde os "comunistas" vão tomar o poder e viver "na vida boa" enquanto o povo passa fome. Isso já ocorre no Brasil. E o sistema vigente é o capitalismo. A classe dominante não é comunista, pelo contrário, está na ponta que sustenta a ditadura da burguesia. Para eles viverem no conforto, vivendo de heranças e gastando milhares de reais / dólares / euros por dia, você, caro trabalhador, precisamos trabalhar.  

Por que digo que isso é um espantalho? Vamos aos fatos, não especulações baratas. Aliás, não quero, com esta crônica argumentativa, falar mal do capitalismo e bem do comunismo. Se fizer isso, cairei no mesmo erro dos que defendem de maneira vazia os conceitos de "liberdade", "democracia" e "meritocracia". Claro que a realidade de uma União Europeia é diferente da América Latina. Entretanto, os mecanismos são semelhantes e o estrago de que vou apresentar pode ser um prelúdio que poderá chegar ao velho continente. Minha linha de escrita e análise é materialista, portanto, analiso o que está sendo feito e não o que poderia ser. E fugirei dos nomes fantasmas que nada dizem. A solução mais eficaz é pensarmos nas ações tomadas e não nos nomes dados. Por exemplo, no Brasil, é muito comum uma pessoa concordar com várias ações do Estado até darem o nome de socialista, fazendo-a dizer que é contra. O "gatilho" são os nomes "esquerda", "igualdade", "comunismo", socialismo", distribuição de renda" etc. A propaganda liberal é tão forte que só os nomes já geram repulsa sem que a pessoa saiba muitas vezes do que se trata. Então, não vou usar nomes, mas ideias.  

A situação atual é de 10% da população passando fome. A taxa de desemprego varia de país a país. De acordo com o portal Trading Economics, no ano de 2023, os índices são: Brasil (8,3%); Argentina (6,9%); Estados Unidos (3,6%); Espanha (13,25%; Itália (7,6%); França (7,1%); China (5,2%); Portugal (15,9%). O que esses índices nos dizem? Estamos vivendo na era da super produção, e como há tanta gente disposta a trabalhar e sem lugares para ocuparem? Simplesmente porque a economia não é planificada. Não é construída para a necessidade do ser humano, mas apenas para uma parcela deles: os mais ricos. 


Sempre bom lembrar que estamos esgotando nosso planeta. Dessa maneira, a produção deve ser para manter nossa vida sem excessos nem faltas. O que ocorre sempre é o desperdício, principalmente de alimentos. Alimentos produzidos para exportação e não para alimentar seu próprio povo. O Brasil, com o agronegócio, alimenta o mundo. O número de famintos no Brasil no primeiro semestre de 2023 é de 33 milhões. Mais de três países como Portugal. Mais de onze países como a Galiza. É muita gente passando fome. Na Argentina, li outro dia, pessoas atacando supermercados a fim de conseguir alimentos. Antes, estavam procurando comida nos lixões das cidades. Seres humanos como nós, buscando comida no lixo. Quem não se lembra do brasileiro comprando ossos nos açougues a R$ 10,00 o quilo, já que a carne estava com preços inacessíveis? A America Latina sabe muito bem o que é desigualdade e fome. Infelizmente.

A economia sendo planificada, haveria como sanar as dificuldades internas e pensar na exportação num sistema de colaboração com os outros países, sem especulações financeiras. Nesse caso, não há como negar que o Brasil terá vantagem, pois se trata de um continente. E poderá ter no seu setor primário qualquer tipo de alimento, por conta das diversas faixas climáticas. Mas falta ao Brasil industrialização, o que sobra na União Europeia e Estados Unidos. É possível planificar a produção de alimentos em torno de pequenos agricultores por meio de uma reforma agrária honesta. Filiais das indústrias pelo mundo poderiam ser implantadas, ampliando a industrialização e autonomia dos países. A tecnologia continuria a avançar. Basta ver a URSS que mantinha uma disputa com os EUA na Guerra Fria, e em 30 anos saiu do feudo para lançar satélites ao espaço.

Outro ponto importante é a saúde e a educação serem universais e gratuitas. Dessa maneira, todos terão acesso para terem boa saúde e educação para exercerem a profissão que escolherem (mesmo que tenham que esperar surgir vaga por conta da planificação da economia e serviços). As empresas passando a serem estatais, haverá investimento direto na sociedade e emprego garantido para toda a população. 

A grande questão é ainda a concentração de renda. Há um texto de Eduardo Giannetti, muito interessante sobre desigualdade e meritocracia. Não vou adentrar o texto porque ele questiona a sociedade com os moldes de hoje. Precisamos mudar o paradigma. Com o acúmulo de capital, grandes fortunas vão surgindo. E com isso, uma ilha de milionários e bilionários se constitui. E junto com o dinheiro, o ócio e o parasitismo vem o poder. Quem gera riqueza não é o capitalista, mas os trabalhadores. Os donos do capital (muitas vezes herdados) tiveram uma posição privilegiada para alcançar tanta fortuna. E vivem de verdade, com lazer, viagens, mimos e estravagâncias. O restante da população tem de trabalhar muito para conseguir minimamente se alimentar. Já li frases como se houvesse um macaco que acumulasse mais bananas do que pudesse comer enquanto outros macacos da mesma região morressem de fome, esse macaco seria estudado. Quando é um homem que faz isso, sai na capa da Forbes. Esse é o tipo de paradoxo em que vivemos.


Uma solução viável para isso é taxar em 100% as heranças e pôr um teto de quanto um homem pode acumular em vida, talvez uns 10 milhões. Essas medida começaria com os mais ricos, gradualmente passando a toda a população. Quando a lógica for incorporada, não haverá sentido acumular algo sendo que todos teriam acesso facilitado. Não faria sentido buscar explorar os outros, já que não teria para quem deixar. Dessa maneira, a sociedade deverá ter escolas de qualidade, hospitais e acesso à moradia, pois os herdeiros talvez não fossem tão espertos quanto os genitores. Portanto, ainda haveria certa desigualdade, mas muito menos brutal do que ocorre hoje. E claro que sempre haverá diferenças entre as pessoas. Não há como todas serem iguais; contudo, todas terão as mesmas chances de progredirem e terem seus talentos reconhecidos. 

Com o passar das gerações, esse sentimento individualizante será pouco a pouco substituído pela noção de coletivo. Afinal, todos terão que trabalhar, porém menos horas do que as 40 horas semanais (em média). Mais pessoas no mundo, mais especialistas, mais tecnologia, menos acúmulo de riquezas, as pessoas viverão mais. O trabalho poderá ser de 15 a 20 horas semanais. Com tempo para estudar mais, viajar e experienciar a vida com possibilidade reais de fazer escolhas. Condições materiais para isso há. O sistema teria de mudar e o investimento no ser humano seria de fato real. Com a economia planificada, a poluição irá diminuir e teremos mais controle ambiental. A devastação ocorre por uma questão de ganância para enriquecimento ilícito. Não haverá bilionários morrendo em aventuras perigosas no fundo do mar. Não haverá bilionários para isso. E a liberdade? A democracia?

Existe um espantalho em torno do que é uma democracia. O presidente do Brasil, Lula da Silva, falou em uma entrevista que democracia é algo relativo. E foi duramente criticado por algo que estava certo. A noção de democracia e liberdade tem sido relativizado. É evidente. Os Estados Unidos têm em torno de 50 milhões de pessoas passando fome em seu solo. No texto de Mariana Sanches (2023) para a BBC, há discussões sobre o afrouxamento das leis para o trabalho infantil no país estadunidense. Para eles, isso é democracia. Para um mundo que "anda para frente", isso é retrocesso. Alguém lembra da Revolução Industrial inglesa? Pois é...


Existem nações com políticas de neoliberalismo, liberalismo, bem-estar social aliadas ou não a ditaduras. Basta ver a Ucrânia, Arábia Saudita, Hungria e Bielorrúsia. O que é uma ditadura? O conceito também é relativizado. A mídia hegemônica pinta ditadura como um Estado totalitário que priva a liberdade do seu povo. Além de perseguições e uso abusivo da força. Algumas ditaduras lançam mão da força bruta da polícia e das forças armadas para reprimir a população e perseguir opositores. Em outros casos, os aparelhos ideológicos já dão conta dessa opressão, situação em que os poucos resistentes não oferecem risco ao Estado de controle. O que dá ainda mais a falsa sensação de liberdade. Sobre aparelhos ideológicos, sugiro a leitura de Louis Althusser (1985). 

Não é honesto dizer que não se tem controle numa sociedade capitalista como Brasil, Estados Unidos ou Espanha. Quando se tem milhões passando fome, sem acesso a moradia, comida, saúde e educação, onde está a democracia? Onde está a liberdade quando não se pode falar a própria língua? Onde está a autonomia de uma região quando a capital de um Estado começa a sucatear essa região para impedi-la de ser autônoma e requerer independência? Ser livre é ter acesso aos bens essenciais para uma vida plena. Defender a democracia que nos é imposta pelo modelo vigente é aceitar que a liberdade dos mais ricos seja assegurada às custas dos mais pobres trabalhando e tendo cada vez menos acesso. Liberdade é um conceito material, mas os medios de comunicação invertem essa liberdade para algo abstrato. Enxergando ditadura nos outros medios de governo, mas não em si mesmo. Inventam que numa economia planificada não se pode viajar, conhecer o mundo. Quantos trabalhadores que recebem apenas um salário mínimo conseguem conhecer o mundo hoje? A classe dominante defende a liberdade de sua própria classe. E com bombardeamento ideológico lança suas aspirações para a classe trabalhadora como se fossem universais.


Alguns lugares do mundo, como países de bem-estar social, essa diferença entre classes é menor, mas tende a aumentar, pois a lógica de acúmulo de capital avançará também nos países desenvolvidos. E começa com privatizações da saúde, educação, aumento do custo de vida, com desculpas de melhorias e progresso quando na verdade é para enriquecer os mais ricos e empobrecer a classe trabalhadora. Quem ganha com a privatização da saúde? Com certeza, é alguém que vai "investir alto", logo, alguém que detém muito capital. E em troca vai querer lucro. Serviços com a menor qualidade possível para o lucro maior possível. Serviços públicos não visam a lucros e são gratuitos. Um é "sem dinheiro, sem saúde" e o outro é "qualidade alta e gratuidade". É difícil escolher, não é? Sem exceção,  povo de todos os países que citei vem escolhendo a primeira opção. 

Quanto mais se inventam narrativas de "paz celestial", irmandade em nome de um ser divino, mais o planeta se torna uma barbárie: guerras por petróleo, existência criminosa de bilionários, competição em todos os níveis entre as pessoas, falta de empatia, opressão de mulheres, não-brancos, LGBTQI+, deficientes físicos e intelectuais... enfim.... Um ditadura disfarçada de democracia, trabalhadores são os escravos do século XXI. E são colocados uns contra os outros, pois com escassez de trabalho, cria-se a lógica da competição. E assim, não nos unimos contra o sistema, mas individualmente, defendemos o que nos oprime e nos mata lentamente.

As pessoas precisam olhar para elas mesmas. Isso faz diferença. No Brasil, uma classe média (que se acha rica) jamais faria o trabalho de sua faxineira e nem aceitaria receber o que os auxiliares de limpeza recebem, mas acham justo pagar isso a esses profissionais. Como existem classes, quem está um pouco acima quer oprimir quem está um pouco abaixo. Numa crise, só escapam aqueles que não estão nas classes, os ricos (1% da população mundial). Estamos fazendo uma união duvidosa. Sem heranças e apenas com serviços públicos, tenho certeza de que teríamos acesso de maneira universal a tudo de que necessitamos: trabalho, lazer, moradia, educação, salário justo e cuidados. Do contrário, estudar, morar, viajar ainda serão priviégios de poucos. 


Essas mudanças a curto prazo não serão viáveis. E muitos trabalhadores, imersos nos espantalhos criados pela classe dominante, vão resistir e defender o sistema que os oprime. As mudanças devem ser graduais e aproveitemos ainda o poder do voto. Devemos votar em partidos que sejam contra privatizações, que promovam políticas públicas de distribuição de renda, que promovam a industrialização, que estejam preocupados em gerar empregos, que cuidem do meio-ambiente, que defendam a cultura local, que ampliem o ensino público de qualidade, que invistam na saúde gratuita e universal, que não sejam machistas, xenófobos nem classistas. Países em desenvolvimento como Brasil e Argentina devem respirar um ar de esperança em apoiar governos que olhem para toda a população. E países da zona do Euro devem tomar cuidado para que uma relativa estabilização não seja destruída pouco a pouco com medidas de piora nas condições de vida dos europeus. E aos EUA só me resta dizer que é o último lugar do mundo para onde eu iria. 


Obrigado pela visita e pelos comentários.   


"AINDA NÃO ME CONFORMEI COM A FALTA DE LOUCURA DESSA NORMALIDADE DESUMANA."


REFERÊNCIAS


ALTHUSER, Louis. Aparelhos ideológicos do Estado. Tradução de Walter José Evangelista e maria Laura Viveiros de Castro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985. 

FOME cresce no mundo e atinge 9,8% da população global. ONU News. 06 jul. 2022. Disponivel em https://news.un.org/pt/story/2022/07/1794722 Acesso em 16 jul. 2023.

GIANNETTI, Eduardo. Igualdade de quê? Folha de São Paulo. 13 fev. 2014. Disponível em https://m.folha.uol.com.br/opiniao/2014/02/1411372-eduardo-giannetti-igualdade-de-que.shtml Acesso em 16 jul. 2023.

OS recursos naturais do planeta estão a esgotar-se. Pode a eletricidade “verde” mudar alguma coisa? Observador. 12 out. 2020. Disponível em https://observador.pt/2020/10/12/os-recursos-naturais-do-planeta-estao-a-esgotar-se-pode-a-eletricidade-verde-mudar-alguma-coisa/ Acesso em 16 jul. 2023.

SANCHES, Mariana. Como país mais rico do mundo está afrouxando leis contra trabalho infantil. BBC. 26 jun. 2023. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce5n267xme3o Acesso em 16 jul. 2023. 

TAXA de desemprego.  Lista de países. Trading Economics. 2023 Disponível em https://pt.tradingeconomics.com/country-list/unemployment-rate Acesso em 16 jul. 2023. 

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Lula vai receber o Prêmio Nobel da Paz?

 Olá! Como estás?

Hoje uma reflexão acerca do presidente brasileiro Lula e o Prêmio Nobel da Paz. Que prêmios, ele já ganhou? 


Prêmios que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um breve resumo.

Desde que foi presidente pela primeira vez em 2003, Lula já ganhou em torno de 300 condecorações. De acordo com a revista norte-americana Newsweek, Lula era, no final de 2008, a 18.ª pessoa mais poderosa do mundo, sendo líder do ranking na América Latina. A revista Forbes considerou Lula a 33ª pessoa mundialmente mais poderosa em 2009. No mesmo ano, foi considerado o "homem do ano" pelos jornais Le Monde e El País.

Ainda em 2009, a revista Time listou Lula como um dos 25 líderes mais influentes do mundo.

Prêmios Grande-Colar, Lula ganhou 2. Os 2 de Portugal (Ordem da Liberdade e Ordem de Camões). 

Prêmios Grã-Cruz (ordens de cavalaria) foram 19, com destaque para Reino Unido, México, Portugal, Colômbia, Argélia, Espanha, Cabo Verde e vários no Brasil.

Medalhas do Mérito foram 8, com destaque à Medalha de Ouro "Aliança Internacional Contra a Fome", do Fundo das Nações Unidas contra a Fome.

Prêmios diversos foram 28 com destaque aos: Prêmio pela paz Félix Houphouët-Boigny da UNESCO, 2008; Estadista Global entregue pelo Fórum Econômico Mundial em sua edição 2010, ocorrida em Davos – Suíça; L 'homme de l 'année (Homem do Ano), entregue pelo jornal Le Monde (França), edição 2009; "Brasileiro da Década" pela revista IstoÉ (2010); Prêmio de Direitos Humanos George Meany-Lane Kirkland - Federação Americana do Trabalho e do Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), união das centrais sindicais dos Estados Unidos e Canadá (2019).

Como Cidadão Honorário, foram 4 prêmios, com destaque aos: Cidadão honorário de Paris - Aprovado pela Câmara Municipal de Paris em 2019; Título de Cidadão Honorário da Cidade de São Paulo.

Como Doutor Honoris Causa, foram 16, com destaque aos: Universidade de Coimbra (Portugal); Universidade Federal de Pernambuco; Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab); Sciences-Po (Institut d'Etudes Politiques de Paris); Universidade de Salamanca (Espanha);

Universidade de Aquino Bolívia - UDABOL (Bolívia).


Diante desses pontos, é perceptível a importância, a relevância e a contribuição para o mundo que Lula já deu e pode continuar oferecendo. O prêmio Nobel não seria um exagero, mas sim um reconhecimento por tudo aquilo que Lula fez e está fazendo pelo Brasil e pelo mundo.

Em 2019, Lula teve seu nome cotado como indicado para o Prêmio Nobel da Paz. De acordo com Marcos Hermanson (2019): 

"Nas especulações e casas de aposta, Lula concorre com nomes como Greta Thunberg, a adolescente e ativista sueca que chamou atenção para a luta pelo clima [...]; o cacique brasileiro Raoni Metuktire, uma das principais lideranças indígenas em nível mundial [...]; e a primeira ministra neozeolandesa Jacinda Ardern, que ganhou notoriedade pela reação ao ataque terrorista de um supremacista branco contra duas mesquitas da cidade de Christchurch, em março de 2015."

Lembrando que nesse periodo, Lula estava preso (desde o dia 07 de abril de 2018) e mesmo da cadeia liderava as pesquisas para as disputas presidenciais brasileiras no fim de 2018. 

De qualquer maneira, o ganhador do Nobel da Paz naquele ano foi o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, por ter atuado para alcançar a paz no conflito entre Etiópia e a Eritreia, país vizinho com o qual houve uma guerra de fronteira entre 1998 e 2000. Quando Abiy Ahmed Ali tornou-se primeiro-ministro, elaborou um acordo de paz entre os dois países, influenciando positivamente outros países do continente. 

O Brasil viveu seu pior momento no governo de 2019 a 2022, com uma infinidade de mortos por negligência governamental e escolhas políticas para benefício dos mais ricos. 

Em 2023, Lula assumiu um país com mais de 33 milhões de pessoas passando fome, sendo que o PT (seu partido) entregou 7 milhões de pessoas ainda em condições miseráveis, em 2016, reduzindo o número que era de 15 milhões em 2002. O Brasil era a 6ª economia do mundo (hoje, 13ª). O Brasil viveu a época do Pleno Emprego em seus governos, chegando à histórica taxa de  4% de desemprego. Entre outras façanhas, como a expansão do Ensino Superior, Lula é comprovadamente o presidente com melhores índices sociais desde a redemocratização.  

A vitória nas eleições foi comemorada por muita gente no Brasil e no exterior. Jamil Chade (2022) comenta: "A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi comemorada pelo ganhador do prêmio Nobel da Paz e presidente do Timor Leste, José Ramos Horta."

Esse apoio é muito importante para sua projeção internacional a fim de ajudar o Brasil e se recuperar e também influenciar outros países em desenvolvimento.


A 23 de junho de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, em Paris, de uma cúpula organizada pelo governo francês para discutir um novo pacto financeiro global.

O portal Poder 360 divulgou o discurso na íntegra para a leitura. O canal Cortes 247 cuja edição é feita pelo jornalista Leonardo Attuch disponibilizou o vídeo das falas do Presidente. 

O discurso de Lula tocou em pontos caros, sensíveis e necessários não apenas ao Brasil, mas também à sua contribuição para o mundo (que não é pequena). Falou da Amazônia real (isto é, a floresta que cobre todo o norte do continente sul-americano) e do desenvolvimento da região para que as populações que ali vivem possam ter melhores condições de vida. 

Citou a energia elétrica do Brasil, que é 87% renovável - contra 27%  do resto do mundo. E que o plano de chegar ao desmatamento zero em 2030 está em curso com chance de ser efetivado. Acrescento aqui que o último resultado do monitoramento do desmatamento na região amazônica, no segundo trimestre do ano, acusou uma redução de 60% graças a políticas ambientais sérias.

Voltando ao discurso de Lula, defendeu o combate à desigualdade social e lembrou sobre o aumento da concentração de renda nas mãos de cada vez menos pessoas enquanto mais pessoas sofrem com a miséria e fome, em vários países do mundo. Lula também falou sobre os avanços nos seus governos e da ex-presidenta Dilma Roussef, hoje presidenta do banco dos Brics. Seu desafio como presidente do Brasil é enfrentar o retrocesso nas políticas públicas brasileiras. 

Acrescentou que Instituições como o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e a Organização das Nações Unidas precisam rever suas atuações e maneiras de ver o mundo atual, pois se espera muito dessas instituições e elas estão deixando a desejar. Citou a criação do Estado de Israel, que acabou gerando a invasão da Palestina. 

Lula afirmou que se não mudarem as instituições, o mundo continuará o mesmo. As mesmas desigualdades. E os que mais precisam são os que mais sofrem com o abandono. Todas as vidas importam. Mas o mundo não trata todos da mesma forma. O presidente ainda questionou que ouve há mais de 20 anos centenas de milhões de pessoas que passam fome e nunca é resolvido esse problema. Como se vai resolver, se não falam sobre desigualdade nesses encontros? Deixou esse questionamento no ar, exigindo essa pauta. 

Ainda com Lula, a solução seria investimentos pesados dos mais ricos nos países mais pobres, pois há potencial energético e condições para amplo desenvolvimento. Apontou para a criação do Banco do Sul, pois está otimista com o Banco dos Brics e com a possibilidade de negociações em que não sejam feitas em dólar, ajudando países, que não podem ter dólares, a fazerem negócios com Brasil, Índia, China, por exemplo. Criticou o protecionismo dos países mais ricos, porque, com isso, houve o aumento do empobrecimento dos países periféricos. Lembrou que além das questões climáticas, espera por acordos comerciais mais justos, a fim de que todos possam se desenvolver. 

Não é justo, na visão de Lula, que os países em desenvolvimento exportem a matéria-prima, mas fiquem sem o produto final; aliás, também acho justo essa posição do presidente brasileiro. Nessa toada, citou novamente a presidenta Dilma e diz que ela tem a caneta para fazer os empréstimos por meio do Banco do Brics, e assim farão a diferença, com o Brasil puxando essa nova forma de negociar e criando relativa independência dos grandes centros. Prometeu discutir a independência do bloco sul em relação ao uso do dólar, na reuniao do Brics, que se realizará em setembro de 2023. 

Exigiu também que mais países africanos participem das reuniões com os países mais ricos (G7 e G20), pois são os desiguais que farão frente à diversidade e para que a pluralidade dos problemas possa ser atendida. Lula elogiou a União Europeia e diz que seu crescimento ocorreu pelo diálogo na divergência, é assim que ele quer fazer na América Latina. Encerrou seu discurso dizendo que vai brigar muito nos três anos e meio que lhe resta de mandato.


Suas palavras tocaram cada ponto, cada fresta, cada canto escondido da política central (dominante). Recomendo o vídeo (ou a leitura) do discurso integral, pois nele fica visível o que se espera de um presidente. Embora não tenha tocado no assunto da guerra entre Ucrânia e Rússia, há interesse por parte do país ucraniano fazer o tratado de paz por meio da diplomacia brasileira. Até nisso, Lula está sendo referência mundial.

O Brasil, em 6 meses de governo petista, já é outro. Tanto na visão nacional quanto internacional. Há muito ainda para se fazer, até porque o estrago foi grande nos últimos 6 anos (governos de direita e extrema-direita). Mesmo assim, o presidente Lula vem fazendo a diferença e construindo uma reforma social apesar dos entraves conservadores. 

Não seria surpresa, ele ganhar o prêmio Nobel da Paz. O Brasil ressurgindo no cenário mundial, é um possivel mediador entre o conflito europeu, sua preocupação com a desigualdade social no planeta, o protagonismo na cúpula do Banco do Brics e ideias que vão contra a ordem mundial atual. Essa ousadia será benéfica a todo o globo, mas nem sempre todo mundo consegue perceber. Quem está na sombra não tem queimaduras...

Que Lula receba esse prêmio por tudo que fez e por tudo que vem fazendo. Um homem que venceu as amarras sociais de um país extremamente desigual e regido por uma classe dominante desprovida de inteligência e com atitudes anacrônicas, um país que enriquece poucos às custas da maioria que vem sofrendo e morrendo, por ser mais vulneráveis (A CPI da COVID está aí para provar). Lula, eu voto em você para o prêmio Nobel da Paz 2023!


Referências


CHADE, Jamil. Nobel da Paz comemora vitória de Lula: "democracia foi restaurada". Uol. 30 de out. de 2022. Dispoñible en https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2022/10/30/nobel-da-paz-comemora-vitoria-de-lula-democracia-foi-restaurada.htm Acceso en 25 de xuñ de 2023. 

CORTES 247. 1 vídeo (19 min). "Um discurso como jamais vi um estadista fazer nos últimos tempos", diz José Reinaldo. Publicado pelo canal Cortes 247, 2023. Dispoñible en < https://www.youtube.com/watch?v=2VauJZCXZeE >. Acceso en 25 de xuñ. de 2023.

 HERMANSON, Marcos Hermanson. Nobel da Paz, com Lula entre os indicados, é anunciado nesta sexta (11). Brasil de Fato. 10 de out. de 2019. Dispoñible en https://www.brasildefato.com.br/2019/10/10/nobel-da-paz-com-lula-entre-os-indicados-e-anunciado-nesta-sexta-11 Acceso en 25 de xuñ. de 2023.

PODER 360. Leia a íntegra do discurso de Lula na cúpula em Paris. Poder 360. 23 de xuñ de 2023. Dispoñible en https://www.poder360.com.br/governo/leia-a-integra-do-discurso-de-lula-na-cupula-em-paris/. Acceso en 25 de xuñ de 2023. 


Obrigado pela visita e pelos comentários.

"OS CEGOS SÃO AQUELES QUE SE RECUSAM A VER A LOUCURA DA BELEZA DE UM MUNDO DESIGUAL. CORTE SUAS PÁLPEBRAS COM O BISTURI MAIS AFIADO E VEJA A LUZ DA VIDA MAIS JUSTA."

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Uma resposta pertinente

 Olá! Como estão?

O texto desta postagem é uma "adaptação" de uma resposta de um comentário que eu fiz no meu vídeo 

Direita sendo direita ‐ Mídia e Comunicação no Brasil - Reflexões V. Achei interessante postar como um texto do blog por abordar alguns assuntos relativos à política brasileira. 

O comentário foi bastante educada e elogiava o meu vídeo por discutir a questão da direita brasileira em relação às mídias sociais, algo com que a esquerda brasileira ainda apresenta dificuldades para ter êxito.

Bem, vamos às minhas considerações. Devo lembrar que a resposta foi dada a um rapaz galego, que conhece a realidade brasileira, por jornais e pela internet. Importante essa informação, pois faço muitas paráfrases. 


O Brasil sempre foi um país muito conservador e religioso (cristianismo). Religião não é um problema até que se misture com política. Existem no Brasil várias bancadas (grupos parlamentares) de ideologias diferentes, no congresso nacional. Existe a bancada da bala (que defende o armamento aos civis, como nos EUA); existe a bancada ruralista (que defende o agronegócio - lembrando que no Brasil é dominado por poucas familias ricas visando à exportação enquanto os brasileiros passam fome); existe a bancada que defende os militares (apoiadores da ditadura), como também a bancada evangélica, composta por fanáticos cristão reigiosos - em sua maioria evangélicos, mas há católicos também. Bolsonaro é católico, por exemplo.

Dallagnol, (bem como Sergio Moro, Damares Alves), sempre levantou a bandeira da religião e do conservadorismo. São contra o aborto (que no Brasil ainda é crime), contra o feminismo, são contra a homossexualidade (pois a veem como doença ou desvio de caráter), enfim... 

Sim, há muitos eleitores que defendem essas posições. E nao são poucas pessoas. Muitos elitores do Lula também compartilham essas visões. Houve uma pesquisa há dois anos que fez esse levantamento - o brasileiro é conservador e preconceituoso (há muitos casos de racismo e homofobia, que não raro acabam em morte). 

O Lula venceu por pouco as eleições. Mas me atrevo a dizer que há mais brasileiros preconceituosos do que os eleitores de Bolsonaro, infelizmente. 

A desigualdade social é vista no Brasil como culpa do indivíduo pobre e não do sistema que o oprime. Claro que existem as pessoas que têm clareza do absurdo desse pensamento, mas são a minoria. Não estou dizendo que ser de esquerda é a solução para tudo ou que é o caminho único, mas num país como o Brasil, em que  desigualdade gera violência, morte, insegurança e falta de cultura; os únicos partidos que visam a combater esse problema são os partidos de esquerda. 6 anos da direita no poder do Brasil e fomos de 7,5 milhoes de pessoas passando fome para 33 milhoes. 

Talvez, aqui na Europa, e mais especificamente, na Galiza, o diálogo seja diferente. Embora, pelo pouco tempo que tenho de Galiza, já não tenho gostado das pautas do PP, e o VOX deveria ser ilegal. Não falo por serem de direita, mas por manterem pautas que vão contra a população, como privatizações na área da saúde e apagamento do galego. Venho de um país (Brasil) que segue a cartilha liberal, e sei onde essas medidas de privatizar tudo vão chegar - ao fundo do poço.


Quanto aos discursos midiáticos, a direiita cria um terror onde não existe e ataca tudo aquilo que é diferente do pensamento deles. A esquerda, geralmente, vai pelo esclarecimento, tende a ser um pouco mais intelectual, o que não atinge as massas. O meu discurso, por exemplo, não funcionaria para as massas, pois não apelo às emoções. A direita faz um pobre que não tem casa nem carro ter medo do comunismo porque vão invadir casas e se apropriar dos carros e dar para quem não tem. O pobre pensa que se houver comunismo / socialismo, ele não poderá comprar uma casa e um carro, e isso é uma loucura. Ele não pensa que com um governo de esquerda, ele poderia ter esses bens. Claro que comunismo e socialismo são espantalhos criados pela direita. Mas é o que Marx fala sobre ideologia, inversão da realidade. 

Creio que aqui na Galiza seja a mesma coisa no sentido das pessoas com menos estudos acreditarem em espantalhos. Pessoas são pessoas em qualquer lugar do mundo. E as ideologias no controlam; mesmo a ideologia de esquerda é uma ideologia. A gente tenta se munir para se filiar a ideologias que achamos mais interessantes para nós. Falam que comunismo é ditadura, mas será que não é todo governo uma ditadura? O pobre pensa que não vai comprar uma casa no socialismo, mas ele também não vai poder comprar no capitalismo, pois não tem acesso. Não estou defendendo comunismo ou socialismo, só ilustrando como a idelogia inverte a realidade e cria uma visão de mundo. 

Aqui na Galiza, tanto as pautas de esquerda quanto a defesa do galego e a proximidade com o português está muito restrito ao meio intelectual e aos que já simpatizam com isso. 

Bem, é isso... Estou à disposição. Vivo aqui e espero poder contribuir com a Galiza. Saúdo!


Obrigado pela visita e pelos comentários.


"QUE POSSAMOS DESCOBRIR AS DELÍCIAS DE UMA VIDA REGADA À LOUCURA DO CONHECIMENTO E DA REFLEXÃO CRÍTICA". 


sexta-feira, 19 de maio de 2023

Poder é poder! Isso não é bom!

    Olá!

    Um breve texto. 


Quase sempre me pergunto por que continuo em busca de aprender alguma coisa nova todo dia...

Será muita utopia acreditar por um segundo que a República de Platão faria algum sentido?
Talvez, o príncipe de Maquiavel arruinaria com tudo?
Adam Smith teria existido e regulamentado a propriedade privada, deixando os menos privilegiados à margem?
Com as devidas adaptações e evolução intelectual, teríamos eliminado os preconceitos e as divisões raciais, linguísticas, econômicas?
Quanto mais estudo, mas vejo que poder é poder.

Poder que é hereditario. Que é simbólico. Que é ignorante. Que é superficial. Mas matam, segregam, sangram. Não matam sempre com balas covardes (embora seja muito comum). Matam com a caneta do Estado. Retirando verba das escolas, das políticas públicas, das moradias, dos alimentos; enquanto perdoam dívidas bilionárias de empresas e pessoas do alto da pirâmide econômica.

Poder é poder!
E isso destrói muito das nossas esperanças...

Obrigado pela visita e pelos comentários.

"TODO DIA É A MESMA COISA: RACIONALIDADE PSEUDO-CIENTÍFICA, CERTEZAS DOS TOLOS E RECEIO DOS INTELECTUAIS. PRECISAMOS DE UMA REVOLUÇÃO DA LOUCURA!"

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Novo Ensino Médio - Abril de 2023

 Olá, tudo bem?


Como prometido, um texto sobre a questão educacional do Brasil, mais especificamente sobre o Novo Ensino Médio, cujo inicio de implementação ocorreu em 2021, em todo território brasileiro. 

Não vou repetir nesta crônica o que já havia dito nos textos de 24 de agosto de 2022 (Só a educação não salvará o Brasil) e de 05 de abril de 2023 (O Novo Ensino Médio em xeque); caso não os tenha lido, vale a pena dar uma passada por eles.

O discurso de hoje foi inspirado por dois episódios dos criadores de conteúdo Medo e Delírio em Brasília. O primeiro episódio é do dia 14 de abril de 2023 (Dias 100 e 101 - A pressão não se justifica)  em que no fim do episódio, há uma fala do pesquisador e doutorando em ciências da aprendizagem, pela New York University, Fábio Campos. O segundo é de hoje, dia 19 de abril de 2023 (Dias 102 a 106 - Deu errado) em que o episódio todo é sobre o Novo Ensino Médio, motivado pelas falas de Campos, no episódio anterior. Recomendo ouvir os dois. 


Iniciando pelas falas de Fábio Campos. O pesquisador inicia sua participação dizendo que daria "um puxão de orelha" no campo progressista por conta de suas críticas ao Novo Ensino Médio (NEM). Diz que a reforma é uma oportunidade de modernizar a escola brasileira, com disciplinas que possam ampliar a visão do aluno por meio dos itinerários. Chega a dizer que a criação do NEM ocorreu no governo da predidenta DIlma Rousseff. 

Bem, realmente, o Ensino Médio (EM) como estava desistimula muito a sociedade e não tem funcionado. Porém, precisamos pensar sobre qual EM estamos falando. Há pelo menos três modelos. O tradicional da rede estadual, o das escolas técnicas (em São Paulo, a rede Paula Souza com as Etec´s) e os intitutos federais. O grosso mesmo é da rede estadual, em torno de 97% de cobertura (podendo variar de estado para estado). São escolas, em muitas vezes, sem estrutura mínima para desenvolver uma boa educação aos jovens. Quando falo de estrutura, não é só questão física. Isso pesa muito também, claro. Mas além de escolas com poucos recursos materiais (salas, carteiras, internet, espaços audiovisuais etc.), há também problemas de recursos humanos (professores e funcionários). Aulas vagas, salas misturadas, recreação e dispensa antecipada dos alunos são realidade no cotidiano brasileiro. Além de tudo isso, há a questão social, pois essas escolas estão majoritariamente nas áreas mais pobres das cidades, logo, seu público é carente do mais básico (vestimenta e alimento). São crianças e jovens que vivem em lares desestruturados muitas das vezes, e lares violentos e que acabam reproduzindo essa violência nas escolas. Na teoria, recriar uma escola mais moderna, com mais tecnologia e mais liberdade para os alunos em um ambiente precário torna-se um sonho idílico.

Na questão sobre a proposta ter surgido no governo Dilma, ficaram faltando algumas informações. O plano nem se desenvolveu, ficou parado, pois não coadunava com os ideias dos governos petistas. Se fosse para fazer um ensino técnico, já existiam os institutos federais ou escolas estaduais técnicas ou o próprio PRONATEC. Desse modo, dizer que foi uma proposta da esquerda e por isso não poderia sofrer críticas da esquerda soou um tanto estranho. 

Contudo, Campos traz uma visão interessante sobre o NEM. Não penso que ele defende o modelo como está (embora algumas pessoas tenham-no criticado por isso), apenas quis apontar que a ala progressista (esquerda) ataca um projeto que poderia dar elementos para uma reforma educacional que ampliasse as possibilidades de aprendizado e estivesse mais alinhado com o sonho da educação crítica. O próprio pesquisador, no episódio seguinte, retrata-se dizendo que se expressou mal. Um ponto de concordância com ele, é a possibilidade de tantas escolhas para os jovens. Ele diz que acredita que os jovens brasileiros, neste momento, talvez não fossem capazes de escolher quase metade do currículo por conta própria. E, sim, temos que amadurecer esse currículo de opções e ir flexibilizando aos poucos, desde que se tenha uma educação melhor. Educar para a autonomia não é algo fácil, e o Brasil não o tem feito. Fábio inflamou o debate os criadores do Medo e Delírio em Brasília fizeram o episódio seguinte apenas sobre o NEM.


No segundo episódio que abordarei aqui, o início é com as falas do Professor Fernando Cássio (UFABC e REPU) rebatendo as falas de Fábio Campos. O professor traz os dados da situação real do Brasil, esses que já apresentei nos textos anteriores e nas referências. O Brasil tem 88% da rede de ensino sendo pública, desse modo, é a grande maioria que vai experimentar os grandes problemas gerados pelo NEM. A comparação com a rede privada apenas resume o que já foi falado por ministros e políticos brasileiros nos últimos anos: educação não é para todos. Essa reforma ilustra isso muito bem, pois a rede privada mantém a grade curricular com todas as disciplinas científicas exigidas nos vestibulares brasileiros e no ENEM (EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO), além de acrescentar ofertas de itinerários críticos, variados e interdisciplinares. Oferta essa que não ocorre na rede pública, onde muuitas vezes há apenas um ou dois itinerários (geralmente relacionados com o sub-emprego).

Para resumir as falas de Cássio, as promessas liberais para a educação não se realizam,pois não a possibilidade de escolhas pelos alunos, há o estreitamento do curriculo e negação ao acesso ao conhecimento. O que o Estado oferece é menos escola para quem mais precisa de escola. Mesmo que houvesse um ensino tradicional nos modelos do século XIX mas bem feita, o Brasil teria uma população bem mais educada. Portanto, o básico não está sendo feito, quanto mais diversificar todo um sistema precário. Liberdade não tem relação com escolha, mas sim com acesso ao conhecimento e formação plena. A maioria  dos alunos brasileiros terão ainda mais defasagem para disputar vagas em universidades. Garantindo que essas vagas continuem a ser preenchidas pelos mais ricos. Aliás, aproveito o ensejo para me colocar contra o vestibular, pois em um país desigual, aumenta ainda mais os privilégios das camadas mais altas da população. 


Gostaria de comentar uma reportagem da Folha de São Paulo, do dia 16 de abril de 2023, de Isabela Palhares, cujo título é Alunos ficam sem aula de biologia, história e química no 3º ano do novo ensino médio em SP. https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/alunos-ficam-sem-aula-de-biologia-historia-e-quimica-no-3o-ano-do-novo-ensino-medio-em-sp.shtml No texto, é dito que São paulo foi o primeiro Estado a implementar as mudanças curriculares. Essa antecipação foi feita pelo então governador João Dória já em 2021 (um ano antes do restante do país), terminando assim a implantação em 2023. Para justificar o título da reportagem, Isabela Palhares traz o número de aulas de cada disciplina na grade anterior e na nova. 

Na grade curricular antiga, Português e Matemática tinham 5 aulas em cada ano do EM. Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia, inglês, Educação Física e Filosofia tinham 2 aulas em cada ano. Na nova grade, Português e Matemática, têm 5 aulas no 1º, 3 no 2º e 2 no 3º. Já Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia e Filosofia têm 2 aulas no 1º ano e 2 aulas no 2º, sumindo da grade no 3º ano. Dessa forma, os alunos do 3º ano do EM, da rede pública de SP, estão sem aulas de todas essas discipinas (Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia e Filosofia). Considerando que esses alunos têm o direito de prestar vestibulares e o ENEM em 2023, como estarão preparados se mais da metade da grade de conteúdos comuns não estão sendo ofertados? Novamente, quem mais precisa é quem menos recebe. Diversos meios de comunicação têm denunciado a diminuição das disciplinas básicas e itinerários descolados do que é cobrado em vestibulares. Além de que muitas escolas nem têm a oportunidade da escolha de itinerários. 

Palhares (2023) também traz a fala de um professro que, em alguns momentos, ignora o conteúdo dos itinerários para ensinar geografia (sua disciplina), pois considera injusto os alunos não aprenderem o que deveriam. Ainda na reportagem, a fala de Anna Helena Altenfelder, presidente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação), resume bem a questão da desigualdade: "as escolas particulares continuam ofertando todas as disciplinas regulares em todos os anos. Elas não abandonaram essas matérias porque sabem que precisam preparar seus alunos para os vestibulares".

No fim de seu texto, traz falas do ex-secretário de educação do Estado de São Paulo (hoje atual secretário de educação do Estado do Pará), Rossiele Soares, que defende o NEM. Depois de tudo que já foi publicado e com dados, a fala do secretário me parece um tanto política e totalmente fora da realidade: "a rede estadual definiu por não ofertar os itinerários na primeira série do ensino médio e concentrar mais na terceira série pelo fato de o estudante estar com mais maturidade e autonomia, dando a ele mais oportunidade de se aprofundar nas áreas de seu interesse nesse estágio de conclusão". E completa: "na verdade, o estudante tem a mesma carga horária de aulas, com mais aulas dos itinerários, que aprofundam o conhecimento da área de conhecimento da escolha dele."

Sim, essa é a visão da classe dominante que implantou essa engenharia criminosa de segregação e que não usam o sistema de educação público para seus filhos, netos, sobrinhos e parentes em geral. Uma visão distorcida da realidade, pois os dados e as pesquisas demonstram justamente o contrário: defasagem, diminuição da carga horária das disciplinas básicas, desmotivação dos alunos e professores, falta de estrutura das escolas, ganhos para a iniciativa privada (por conta dos convênios com as Secretarias de Educação e a formação da futura mão-de-obra barata), aumento da desigualdade social e ampliação dos privilégios para os mais ricos. A consulta pública que iniciará em maio /2023 pelo governo Lula é premente. A questão é ter que trocar o motor do carro com ele em movimento...


Obrigado pela visita e pelos comentários.


"INCRÍVEL COMO QUEM VIVE BEM É INCAPAZ DE VER OS QUE NÃO POSSUEM OS MESMOS PRIVILÉGIOS. QUE LOUCURA ESSE MAR DE INSENSIBILIDADE!" 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Uma explicação sobre o texto de 09 de março de 2023

 Olá, tudo bem?


Antes de mais nada, preciso explicar a razão deste texto. 

É um esclarecimento da crônica do dia 9 de março de 2023, cujo título é Galego: Lingua nai de toda lusofonía.


Devo agradecer, antes de tudo, ao amigo Guel de Miranda, que me ofereceu críticas muito construtivas ao referido escrito. A partir dessas críticas, pensei em escrever esta nova crônica argumentativa (não a classifico como um artigo por conta de estrutura e rigor).


Alguns pontos devem ser explorados a seguir: 

a) Sou brasileiro;

b) Questão filológica e política;

c) Questão do nacionalismo galego;

d) Minha posição.


Sou brasileiro


Por que esse ponto é relevante para este texto? Simples. Minha formação toda foi no Brasil até este momento. E mal sabia da existência da Galiza, da situação linguística e política de seu povo. Vim para a península ibérica para estudar in loco. E claro, não só pelos livros, mas com os amigos galegos e portugueses.

O fato de eu morar há pouco tempo na Galiza (Corunha) não me isenta de eventuais erros ou falhas em minhas manifestações. Apenas quero dizer que estou aberto a críticas, sugestões de leituras, de passeios e conversas. Ninguém melhor do que a gente que vive aqui para me dar essas coordenadas. 


Questão filológica e política


Neste ponto que talvez eu não tenha me expressado bem. Há uma diferença muito grande entre as discussões filológicas e políticas quando se trata de Estados com mais de uma língua oficial, principalmente quando não há equidade entre elas.

Primeiro problema que não ficou claro no meu texto anterior está na seguinte passagem:

"O galego é a lingua materna de todas as variantes do portugués. A lingua hoxe de todas as variantes non se chama galego por razóns políticas."

Dessa forma, afirmo que a língua galega é mãe do português. Essa afirmação não foi no eixo filológico, mas sim, numa provocação nacionalista. Do ponto de vista filológico, essa afirmação não se sustenta. Vou apresentar dois cenários:

I - O galego e o português são línguas diferentes. Dessa forma, as duas têm uma origem comum desde o Reino Suevo, passando pela dominação dos Visigodos,tornando-se o Reino da Galiza (em referência à Galaecia). Com a independência de Portugal, houve um distanciamento da variante do sul (português) que se desenvolveu de forma autônoma, principalmente pelo controle linguístico do novo Estado e a preocupação do fortalecimento da identidade linguística. Já a Galiza , que esteve sob a tutela de Castela cuja língua é o castelhano (castelán), não pôde ter esse controle, pois não tinha a língua de governo, embora o galego fosse respeitado como língua de cultura. Outro ponto importante é que as línguas oficiais (antes vernáculos - ou simplesmente linguagem) foram se oficializar séculos a frente da independência de Portugal mesmo, que já houvesse a preocupação de se diferenciar da variante do norte. 

Então, as duas línguas surgiram juntas, o que impossilita de uma ser mãe da outra. Com o passar do tempo, por questões políticas, elas se desenvolveram de maneiras distintas.   

II - o galego e o português são a mesma língua. Se são a mesma língua, estou falando de uma unidade linguística como é o português do Brasil, português de Angola e de todos os países para os quais Portugal levou a "última flor do lácio".  Sendo assim, não há como se falar de parentesco ou ascendência. Não há como ser mãe / pai de si mesmo. 

A questão política determina muitas vezes o status de uma língua. Isto é, se é um dialeto, uma língua, uma variante ou uma língua autônoma. Existem diversos exemplos de línguas que recebem seu status de acordo com o poder econômico do país que as denomina. Não vou explicar caso a caso, mas uma pesquisa, mesmo que no google, trará respostas interessantes (ainda que superficiais) sobre o cabo-verdiano; norueguês e dinamarquês; luxemburguês; romeno e a Moldávia; as línguas da Bélgica, as línguas da Africa do Sul, as línguas minoritárias na Península Ibérica e da Alemanha etc.   

O que nos serve neste momento é que a questão atual da separação da Língua Portuguesa do Galego (tidas como línguas irmãs) deve-se a questões políticas e nada mais do que isso. São escolhas a partir dos estudos apresentados e dos postulados que sao seguidos. Do mesmo modo, o que mantém a unidade Lusófona pelo mundo é a questão política, embora haja estudos que já discutam que o Brasil fala brasileiro, e não mais português. Não estou defendendo aqui um ou outro ponto, mas demonstrando que as decisões são tomadas a partir de um complexo sistema de escolhas.


Questão do nacionalismo galego


Considerando as questões anteriores, de onde surgiu a expressão "Galego é mãe de toda a lusofonia"? Bem, a ideia não era distocer a história, mas apenas fazer uma provocação retórica. Se Portugal tornou-se independente falando a mesma língua da Galiza e depois batizou essa língua com o nome da nação independente, levando-a para o mundo afora, por que não poderia "sugerir" dizendo que a língua batizada posteriormente é filha da Galiza?

Esse discurso pode ser aproximado do nacionalismo galego. Mas falo aqui de um nacionalismo que distorce a história se fosse o caso. Não era a impressão que eu gostaria de ter passado. É como se fosse uma resposta aos portugueses que defendem que Portugal é oriundo da Lusitânia e não "deve nada" à Galiza. Mas dizer que Portugal deve algo à Galiza também é um nacionalismo cego. 

Grande parte dos galegos se acham irmãos dos portugueses e vice-versa (pelo menos os portugueses do norte). Há uma boa relação entre os povos. E que continue assim.

Nenhum extremismo é interessante para discussões dessa natureza. Em verdade, em nenhuma situação. Tive de explicar "a piada" (de maneira análoga), mas se só eu dei ridada, deixa de ser piada. Logo, reconheço que não me expressei bem no texto já citado.


Minha posição


Diante do exposto, claro que tenho uma posição. E creio que está mais do que evidente, entretanto, farei questão de explicá-la. Minha posição como investigador é que a língua portuguesa e o galego, hoje línguas independentes (embora irmãs), são a mesma língua. Claro que há diferenças, que não são maiores do que as diferenças entre as variantes do inglês que correm o mundo ou do próprio português falado em 4 continentes. Claro que a língua é a marca cultural de um povo e vai se moldar de acordo com a realidade local, o que não impede a comunicação com outras regiões que tenham a mesma estrutura linguísitica.

A situação da perda de falantes do galego, na Galiza, incomoda-me muito, pois é uma região que preserva muitos traços do período galego-português. Faço defesa do galego, mas não quero distorcer a história ou fazer falsas dissertações. Simbólica (e historicamente), a região da Galaecia é o berço do romance que originou o galego e o português (na atual divisão) ou a língua que é falada por mais de 250 milhões de pessoas. O português, de fato, é o galego que surgiu no norte e desceu para o sul. De defender essa unidade, eu não abro mão. Viva Galego! Viva Galiza!


Obrigado pela visita e pelos comentários.


"CADA UM VÊ COM OS OLHOS QUE TEM E COM A LOUCURA QUE POSSUI!"

quarta-feira, 5 de abril de 2023

O Novo Ensino Médio em xeque

 Olá! Tudo bem? 

Vamos falar sobre a catastrófica reforma do Ensino Médio e a sua suspensão?


Desde 2017, há discussões acaloradas acerca da BNCC e do Novo Ensino Médio, na educação brasileira. A reforma basicamente amplia o número de horas de 2.400 para 3.000 na grade horária do Ensino Médio. Entretanto, diminui a grade comum como ocorria até 2021 (pois 2022 foi o ano de início de implementação da reforma). Trago este assunto, porque ontem (04 de abril de 2023), o governo federal publicou no Diário Oficial que a implantação do Novo Ensino Médio está suspensa. 

No texto de Isabela Palhares e Paulo Saldaña, na Folha, no dia 03 de abril, "pelas novas regras, 60% da carga horária dos três anos são compostos por disciplinas regulares, comuns a todos os estudantes. Os outros 40% são destinados às disciplinas optativas dentro de grandes áreas do conhecimento, os chamados itinerários formativos". Dessa maneira, são 600 horas por ano com conteúdos básicos comuns (Português, Matemática, Biologia, História etc.) contra 800 horas que havia antes da reforma. Para saber mais sobre as opiniões no início do Novo Ensino Médio, recomendo o artigo de Ana Luiza Basilio e o de Débora Goulart, Fernando Cássio e José Alves da Silva, em que discutem as condições iniciais do projeto sendo implantado e seus desafios. 

Em 15 de março de 2023, estudantes protestaram em São Paulo pela revogação do Novo Ensino Médio, já que o novo governo federal é oposição aos dois governos anteriores (o que assinou a lei e o que implantou a reforma). Apesar da pressão, Camilo Santana (Ministro da Educação do governo Lula) não se colocou a favor da revogação do Novo Ensino Médio. "Ele defende ajustes no modelo e que a demolição da medida seria um retrocesso" (PALHARES, Isabela; SALDAÑA, Paulo, 2023). 

Essa mudança foi decidida por questões políticas e pela base aliada ao empresariado brasileiro, pois não houve consulta pública. Mesmo com muitas reinvindicações dos profissionais de educação (excluídos durante a decisão das bases), poucas mudanças foram concedidas à época (como a inclusão de filosofia, sociologia e artes, à grade comum). Logo, a suspensão "ocorrerá, inicialmente, no período previsto para a consulta pública sobre o tema. Iniciada em março, a consulta tem 90 dias de duração, com possibilidade de prorrogação, e mais 30 dias para o MEC (Ministério da Educação) elaborar um relatório que vai definir o futuro da política" PALHARES, Isabela; SALDAÑA, Paulo, 2023).

A reforma não está anulada, é apenas um período para haver diálogo real desta vez, com setores que não participaram outrora. As escolas têm autonomia para manter as adaptações, avançar na implementação de intinerários ou reorganizar sua grade (o que é bem complicado em se tratando do início do ano letivo). Outro ponto importante é a mudança que o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) sofreria em 2024 - ano em que, supostamente, a implantação do Novo Ensino Médio estaria completa - não vai ocorrer. Não será reformulado e se manterá como está hoje, no mesmo formato e com as mesmas exigências.

Laura Mattos, em seu artigo na Folha, ontem, intitulado Entenda o novo ensino médio e suas polêmicas em 8 pontos, apresenta questões bem pertinentes sobre a atual situação do sistema educacional brasileiro. A grade com as quatro grandes áreas a serem estudas pelos alunos recebeu mais uma área: formação técnica e profissional, com a justificativa de o aluno sair do Ensino Médio com uma profissão (o que na verdade tornar-se-ia a fabricação de mão-de-obra barata, além de afastar ainda mais esses estudantes dos bancos universitários). 

 Pontos que pesam contra o modelo (MATTOS, Laura, 2023): carga horária muito ampla (aumenta a evasão escolar daqueles que precisam trabalhar); sistema que esquece que mais de 80% das escolas são públicas (isto é, sem recursos humanos e financeiros para a estrutura demandada); diminui a carga horária tradicional em 600 horas no total (menos aulas das disciplinas básicas). No seu artigo, Laura Mattos também discute maneiras de dialogar para se resolver o problema, pois já houve investimento grande para suspender a reforma; entretanto, alguns ajustes poderiam ser feitos, como flexibilização dos itinerários e aumento da carga horária dos conhecimentos básicos. 

No artigo de Alexandre Schneider, na Folha de São Paulo, ontem dia 04 de abril, há a seguinte passagem: "A questão não é só política. Há problemas de desenho e implementação, que podem ampliar as já abissais desigualdades educacionais existentes". Para bem dizer a verdade, é uma questão política, sim. A reforma foi feita com intenções políticas, excluindo os profissionais da educação de debaterem a questão, além de privilegiarem os empresários para terem mão-de-obra barata, e de favorecerem os menos de 20% de alunos da rede privada que continuariam a ter a grade completa e com várias opções de itinerários (o que não está ocorrendo na rede pública), excluindo ainda mais as camadas populares das disputas por vagas em Univesidades Públicas. Da mesma forma que o governo Lula está abrindo o debate para manter sua posição de estadista numa sociedade que tem sua democracia fragilizada, também tem viés político. Claro que o modelo em vigor aumenta as desigualdades, que já eram muitas.

Há um outro trecho do artigo que me incomodou um pouco. Quando dá exemplos das escolas públicas, cuja maioria não tem recursos humanos suficientes nem financeiros para diversificar esses itinerários complementares das base comum. Logo, "um estudante que pretende estudar engenharia tem menos horas de matemática na FGB e deveria aprofundar seus estudos na área cursando itinerários formativos correspondentes. Quando a escola lhe nega o itinerário em matemática, está violando dois de seus direitos: o de escolher seu percurso acadêmico e o de se preparar para o curso universitário de seu interesse". A fala estaria correta se já houvesse no Brasil a chance das camadas mais sensíveis terem acesso ao ensino superior direto. Hoje, o Brasil tem apenas 15% da população com diploma de graduação mesmo com todo esforço dos governos petistas entre 2003 e 2016. Sendo que a maioria dos formados são das camadas mais abastadas que usam o sistema universitário público. A USP vem comemorando o aumento de alunos oriundos das escolas públicas; entretanto, ainda está longe de atingir os 80% desses discentes.

Na área de comentários, há um interessante, de um leitor. O comentário é de José Davi (como se identificou) e diz: "A Folha que denunciou a falta de professores é a mesma que prega pelo corte nas despesas do estado, mas esses cortes não podem afetar os credores rentistas? O garoto que vai fazer engenharia é apenas um fazedor de contas? Não pode ter uma percepção humana e artística ? Estranho esse pensamento da matemática como um fim em si mesma". O que me interessa nesse comentário são duas questões. O primeiro é o apontamento para a incoerência da Folha de São Paulo. Aqui, haja talvez falta de conhecimento do leitor sobre o fato de que os colunistas gozam de relativa liberdade em relação à opinião do jornal. Ou o leitor não se expressou bem sobre essa ser a opinião do articulista. 

O outro ponto reflete um pouco do que pensa a sociedade brasileira a respeito da formação escolar. Concordo com o leitor quando diz que as áreas podem ser complementares, isto é, uma formação integral. Criou-se no sistema educacional do Brasil a ilusão de que um estudante que tem propensão para a área de exatas não precisa desenvolver seus conhecimentos em gramática, literatura e história, por exemplo. E o contrário também se aplica. Quantos estudantes de humanas mal sabem desenvolver o raciocínio lógico, além dos baixos conhecimentos de física e química? 

Primeiro: a escola representa o ensino básico. Pressupõe-se que todos os estudantes tenham uma noção geral daqueles conhecimentos (mesmo que tenha uma maior dificuldade em uma área). O que ocorre é a negligência e o abandono dos conteúdos "com os quais não se tem afinidade". Segudo: a cultura que deveria ser meta, é deixada de lado por grande parte dos brasileiros, basta ver os números sobre leitura. No Brasil, há falências de livrarias (que já não são muitas). Dessa forma, a educação não cumpre o seu papel, pois além de formar mal os jovens (mesmo que se dedicassem a todas as disciplinas, pois o sistema "ensina" a passar no vestibular), cria-se essa imagem negativa dos próprios conhecimentos, esses que não seriam "importantes de aprender", normalizando a falta de cultura.  

Há grandes desafios para o governo petista, que entregou um Brasil no início dessa virada cultural a partir de grandes investimentos em ciência e construção de universidades públicas (além dos convênios com a rede privada), mas que foi paralisada por 6 longos anos de baixos investimentos, negacionismos e cortes imensos nos incentivos científicos (que já eram poucos).


REFERÊNCIAS 

BASILIO, Ana Luiza. Em São Paulo, a promessa de ‘liberdade’ da reforma do Ensino Médio não se concretizou. Carta Capital. 03 de jun. de 2022. Disponível em https://www.cartacapital.com.br/educacao/reforma-do-ensino-medio-trouxe-um-empobrecimento-da-formacao-dos-estudantes-diz-estudo/ . Acesso em 11 de jun. de 2022.

GOULART, Débora; CÁSSIO, Fernando; SILVA, José Alves da. Ensino médio nem-nem. Carta Capital. 02 de jul. de 2021. Disponível em 

https://www.cartacapital.com.br/opiniao/ensino-medio-nem-nem/ Acesso em 11 de jun. de 2022.

MATTOS, Laura. Entenda o novo ensino médio e suas polêmicas em 8 pontos. Folha de São Paulo, 4 abr. 2023. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/entenda-o-novo-ensino-medio-e-suas-polemicas-em-8-pontos.shtml Acesso em 5 abr. 2023.

PALHARES, Isabela; SALDAÑA, Paulo. Governo Lula vai suspender implementação do novo ensino médio e mudanças no Enem. Folha de São Paulo, 3 abr. 2023. Disponível em 

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/governo-lula-vai-suspender-implementacao-do-novo-ensino-medio-e-mudancas-no-enem.shtml Acesso em 05 abr. 2023.

SCHNEIDER, Alexandre. MEC precisa liderar a discussão sobre o novo ensino médio. Folha de São Paulo, 04 abr. 2023. Disopnível em  

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/mec-precisa-liderar-a-discussao-sobre-o-novo-ensino-medio.shtml Acesso em 05 abr. 2023.


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