Deixo aqui um artigo de divulgação científica, da época do curso superior.
Saia-Justa? Passado!
Victor Hugo Vasconcellos
( A) - Ei, você lembra do vestido horrível da Sandrinha na festa de sábado?
( B) - Nossa! Está quente hoje! Vamos tomar sorvete?
( A) - Tudo bem então. Está quente mesmo.
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(A) - Fala, amigão! Me empresta R$ 2.000,00 pra esta semana?
(B) - Só dois? Você não quer R$ 3.000,00, não?
Quem nunca se utilizou de falas como essas no dia-a-dia? Ora para não falar mal da amiga, ora para não ser tão ríspido com o colega de anos que sempre está presente em momentos de apuro, diz-se um enunciado simples, mas que gera um outro sentido, livrando-se de situações desconfortáveis.
A língua é viva e com ela são elaborados diversos e infinitos tipos de enunciados, construídos minuciosamente para cada situação. E como o discurso é compreendido perfeitamente se nele não estão explícitas todas as informações?
No primeiro exemplo, há um diálogo em que amigas conversam sobre uma terceira garota e, num dado momento o foco da conversa é desviado para evitar uma discussão.
No segundo exemplo, um amigo de tempos vem solicitar dinheiro emprestado e recebe como resposta um "Não" sofisticado em tom de ironia.
Nos dois exemplos há uma mudança no sentido das palavras ou expressões por meio do contexto, gerando sentidos diferentes daqueles que são enunciados. Fala-se " Só dois? Você não quer R$ 3.000,00 não?" , mas na verdade a intenção é : " Não! Não irei emprestar!".
Esse efeito de mudança no tom do discurso e/ou a condução de um assunto para outro, é intencional por parte do falante a fim de se evitar um choque ou atrito. A intenção do falante é retratada por meio de estruturas utilizadas por ele, assim, se a intenção não é discutir sobre determinado assunto, o ideal é que se mude de assunto, que fuja deste. Para não gerar um atrito apenas se desconsidera o que foi dito, partindo para um novo assunto.
Falas como essas são muito freqüentes no dia-a-dia e foram observadas especialmente por um estudioso da língua, chamado Paul Grice (1). Assunto que foi desenvolvido em suas teorias chegando ao conceito de Princípio da Cooperação, em que o falante coopera com o outro enquanto está estabelecido um diálogo. Mas, coopera como? Pela observação, nota-se que este princípio acontece instintivamente quando há uma conversa: um escuta, o outro fala. Depois os papéis se invertem: o que escutou passa a falar e o primeiro escuta. Primeiro conceito de Grice.
H. P. Grice defende que os sentidos gerados num discurso podem ser causados pelas implicaturas conversacionais por meio das quebras das Máximas. As implicaturas conversacionais são situações em que o discurso sintático (fala literal) gera outros sentidos dependendo de seu contexto, como nos exemplos citados. Máximas são regras que norteiam o diálogo, possibilitando um melhor entendimento e cooperação entre os falantes. As quebras das Máximas podem gerar um discurso confuso, mas, dependendo de seu contexto de produção pode ser compreendido.
No primeiro exemplo, há a quebra da Máxima da Relação que diz respeito à relevância (importância) do discurso. No exemplo, a garota quebra a máxima ao mudar de assunto, não relevando o que sua colega proferiu, gerando um efeito de estranhamento à primeira impressão, mas sua intenção é muito clara em querer mudar de assunto já que ele a desagrada.
No segundo exemplo, o colega que recebe o pedido diz que “Sim” em palavras, mas seu tom é de ironia, o que acaba criando a desistência do pedido. Neste caso há a quebra da Máxima da Qualidade, já que o interlocutor do solicitante diz o contrário do que pensa, ferindo a verdade, criando uma ironia. Portanto, a Máxima da Qualidade refere-se a dizer a verdade, o que não acontece quando se é irônico.
Há mais duas regras (ou Máximas), são elas: Máxima da Quantidade e Máxima do Modo.
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(A) - Vamos conversar um pouco. Me responde: como foi o jogo do Grêmio?
(B) - Bom.
(A) - Só isso você tem pra dizer?
(B) - Só!
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(A) -Você sabe brincar de índio?
(B) - Brincadeira de índio mim gostar.
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Nesses casos tem-se uma recusa para conversar e uma inversão de termos da oração intencionalmente construídos a fim de um sentido específico.
No caso da recusa há a quebra da Máxima da Quantidade que diz para que sejam transmitidas as informações de modo exato, sem dados a mais e nem a menos do que o solicitado. Assim ao dar informações a menos do que o pedido pelo interlocutor, gera uma recusa de conversa, um efeito de “Deixe-me aqui quieto! Não quero conversar com você!”
No último exemplo há um convite para se brincar de índio. O interlocutor responde na ordem invertida das palavras, assim como os índios são representados no senso comum. Portanto esse efeito de inversão (e também a troca do pronome pessoal “EU” pelo pronome oblíquo “MIM”) mostra que o interlocutor conhece a linguagem dos índios (representadas no imaginário popular), estando apto para brincar. A regra violada é a Máxima do Modo, pois a língua portuguesa, segundo a gramática normativa, possui uma certa ordenação e, não como aparece proferida no discurso. Isso em outro contexto poderia tirar a clareza do enunciado, ferindo a Máxima que diz para ser sempre ordenado sintaticamente.
Portanto, os seres humanos brincam com a língua em sua infinidade de possibilidades, gerando novos sentidos e ampliando o leque de construções de discurso. Nos exemplos citados, a suavização aparece no momento de se dizer “Não”, evitando nesses contextos, situações desagradáveis para os interlocutores. Ou então no tom agradável de cumplicidade em uma brincadeira.
Sempre que vier um amigo pedir dinheiro emprestado ou falar mal de uma pessoa querida, as Máximas de Grice servirão de apoio para desvencilhar-se de situações um tanto desconfortáveis ou programas de índio.
Notas
(1) Herbert Paul Grice foi um grande estudioso da Língua, conhecido por introduzir nos estudos do discurso a questão das Implicaturas convencionais e conversacionais.
Para saber mais:
Livro:
FIORIN, José Luiz (org.) Introdução à Lingüística I. Objetos Teóricos. São Paulo: Contexto, 2002.
Sites:
VIÉGAS-FARIA, Beatriz. A Teoria Inferencial das Implicaturas: Descrição do Modelo Clássico de Grice. Disponível em: http://www.pucrs.br/letras/pos/logica/implicat.html . Acessado em 17 de Junho de 2007.
Paul Grice. In: Standford Encyclopedia Of Philosophy. Disponível em http://plato.stanford.edu/entries/grice . Acessado em 17 de junho de 2007.
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