Olá! Como estás?
Vamos falar um pouco sobre espantalhos.
Como tenho leitores do Brasil, Argentina, Galiza, Portugal, Espanha e Estados Unidos (até onde eu sei), tentarei adequar a discussão para que não fique só o foco no sistema esconômico do Brasil. Se leres o meu texto, coloca nos comentários de que país és. Agradecido.
Não posso concordar em viver num mundo em que aproximadamente 10% da população do planeta passam fome (2022) e que 2,3 bilhões de pessoas (29,3% da população global), estavam em insegurança alimentar em 2021, de acordo com os dados da ONU News (2022).
Não posso estar de acordo com um planeta que consome muito mais do que suporta por uma lógica (ou falta dela) consumista e prejudicial à nossa sobrevivência. De acordo com o portal Observador (2020), a população mundial consome mais recursos naturais do que aqueles que o planeta pode renovar. Esse consumo anual gira em torno de 1,75 planeta Terra, quase dois globos. O dobro do que poderíamos consumir. Embora tenhamos "inventado" maneiras de subjugar uns aos outros, de selecionar (de maneira artificial) quem tem conforto e quem não tem. O planeta, amiguinhos, é um só.
A partir desses dados iniciais (poderia buscar muitos outros como violência, desemprego, falta de moradia, falta de saneamento básico etc.), podemos observar os discursos correntes e toda uma burocracia para resolver o problema. Em verdade, se quisessem resolver a desigualdade, a fome, o desemprego, já o teriam feito. É que resolver esses problemas implicaria reformular a lógica vigente do acúmulo desenfreado de capital, a exploração da mão-de-obra, a segregação estrutural e todo um conjunto de privilégios de que muito poucos gozam. Tirar o poder de quem o detém, ou diminuí-lo na redução da exclusividade.
Há debates acalorados que um sistema é melhor que o outro. Que o capitalismo liberal prega a verdadeira liberdade. Que o comunismo é equiparado ao nazismo. Que se um país capitalista adotar medidas para diminuir as desigualdades, os bens das pessoas seriam confiscados. Tudo isso não passa de espantalhos. Pessoas desinformadas que passam informações errôneas para outras pessoas desinformadas. Mensagens cujo conteúdo versa sobre a destruição de um país, onde os "comunistas" vão tomar o poder e viver "na vida boa" enquanto o povo passa fome. Isso já ocorre no Brasil. E o sistema vigente é o capitalismo. A classe dominante não é comunista, pelo contrário, está na ponta que sustenta a ditadura da burguesia. Para eles viverem no conforto, vivendo de heranças e gastando milhares de reais / dólares / euros por dia, você, caro trabalhador, precisamos trabalhar.
Por que digo que isso é um espantalho? Vamos aos fatos, não especulações baratas. Aliás, não quero, com esta crônica argumentativa, falar mal do capitalismo e bem do comunismo. Se fizer isso, cairei no mesmo erro dos que defendem de maneira vazia os conceitos de "liberdade", "democracia" e "meritocracia". Claro que a realidade de uma União Europeia é diferente da América Latina. Entretanto, os mecanismos são semelhantes e o estrago de que vou apresentar pode ser um prelúdio que poderá chegar ao velho continente. Minha linha de escrita e análise é materialista, portanto, analiso o que está sendo feito e não o que poderia ser. E fugirei dos nomes fantasmas que nada dizem. A solução mais eficaz é pensarmos nas ações tomadas e não nos nomes dados. Por exemplo, no Brasil, é muito comum uma pessoa concordar com várias ações do Estado até darem o nome de socialista, fazendo-a dizer que é contra. O "gatilho" são os nomes "esquerda", "igualdade", "comunismo", socialismo", distribuição de renda" etc. A propaganda liberal é tão forte que só os nomes já geram repulsa sem que a pessoa saiba muitas vezes do que se trata. Então, não vou usar nomes, mas ideias.
A situação atual é de 10% da população passando fome. A taxa de desemprego varia de país a país. De acordo com o portal Trading Economics, no ano de 2023, os índices são: Brasil (8,3%); Argentina (6,9%); Estados Unidos (3,6%); Espanha (13,25%; Itália (7,6%); França (7,1%); China (5,2%); Portugal (15,9%). O que esses índices nos dizem? Estamos vivendo na era da super produção, e como há tanta gente disposta a trabalhar e sem lugares para ocuparem? Simplesmente porque a economia não é planificada. Não é construída para a necessidade do ser humano, mas apenas para uma parcela deles: os mais ricos.
Sempre bom lembrar que estamos esgotando nosso planeta. Dessa maneira, a produção deve ser para manter nossa vida sem excessos nem faltas. O que ocorre sempre é o desperdício, principalmente de alimentos. Alimentos produzidos para exportação e não para alimentar seu próprio povo. O Brasil, com o agronegócio, alimenta o mundo. O número de famintos no Brasil no primeiro semestre de 2023 é de 33 milhões. Mais de três países como Portugal. Mais de onze países como a Galiza. É muita gente passando fome. Na Argentina, li outro dia, pessoas atacando supermercados a fim de conseguir alimentos. Antes, estavam procurando comida nos lixões das cidades. Seres humanos como nós, buscando comida no lixo. Quem não se lembra do brasileiro comprando ossos nos açougues a R$ 10,00 o quilo, já que a carne estava com preços inacessíveis? A America Latina sabe muito bem o que é desigualdade e fome. Infelizmente.
A economia sendo planificada, haveria como sanar as dificuldades internas e pensar na exportação num sistema de colaboração com os outros países, sem especulações financeiras. Nesse caso, não há como negar que o Brasil terá vantagem, pois se trata de um continente. E poderá ter no seu setor primário qualquer tipo de alimento, por conta das diversas faixas climáticas. Mas falta ao Brasil industrialização, o que sobra na União Europeia e Estados Unidos. É possível planificar a produção de alimentos em torno de pequenos agricultores por meio de uma reforma agrária honesta. Filiais das indústrias pelo mundo poderiam ser implantadas, ampliando a industrialização e autonomia dos países. A tecnologia continuria a avançar. Basta ver a URSS que mantinha uma disputa com os EUA na Guerra Fria, e em 30 anos saiu do feudo para lançar satélites ao espaço.
Outro ponto importante é a saúde e a educação serem universais e gratuitas. Dessa maneira, todos terão acesso para terem boa saúde e educação para exercerem a profissão que escolherem (mesmo que tenham que esperar surgir vaga por conta da planificação da economia e serviços). As empresas passando a serem estatais, haverá investimento direto na sociedade e emprego garantido para toda a população.
A grande questão é ainda a concentração de renda. Há um texto de Eduardo Giannetti, muito interessante sobre desigualdade e meritocracia. Não vou adentrar o texto porque ele questiona a sociedade com os moldes de hoje. Precisamos mudar o paradigma. Com o acúmulo de capital, grandes fortunas vão surgindo. E com isso, uma ilha de milionários e bilionários se constitui. E junto com o dinheiro, o ócio e o parasitismo vem o poder. Quem gera riqueza não é o capitalista, mas os trabalhadores. Os donos do capital (muitas vezes herdados) tiveram uma posição privilegiada para alcançar tanta fortuna. E vivem de verdade, com lazer, viagens, mimos e estravagâncias. O restante da população tem de trabalhar muito para conseguir minimamente se alimentar. Já li frases como se houvesse um macaco que acumulasse mais bananas do que pudesse comer enquanto outros macacos da mesma região morressem de fome, esse macaco seria estudado. Quando é um homem que faz isso, sai na capa da Forbes. Esse é o tipo de paradoxo em que vivemos.
Uma solução viável para isso é taxar em 100% as heranças e pôr um teto de quanto um homem pode acumular em vida, talvez uns 10 milhões. Essas medida começaria com os mais ricos, gradualmente passando a toda a população. Quando a lógica for incorporada, não haverá sentido acumular algo sendo que todos teriam acesso facilitado. Não faria sentido buscar explorar os outros, já que não teria para quem deixar. Dessa maneira, a sociedade deverá ter escolas de qualidade, hospitais e acesso à moradia, pois os herdeiros talvez não fossem tão espertos quanto os genitores. Portanto, ainda haveria certa desigualdade, mas muito menos brutal do que ocorre hoje. E claro que sempre haverá diferenças entre as pessoas. Não há como todas serem iguais; contudo, todas terão as mesmas chances de progredirem e terem seus talentos reconhecidos.
Com o passar das gerações, esse sentimento individualizante será pouco a pouco substituído pela noção de coletivo. Afinal, todos terão que trabalhar, porém menos horas do que as 40 horas semanais (em média). Mais pessoas no mundo, mais especialistas, mais tecnologia, menos acúmulo de riquezas, as pessoas viverão mais. O trabalho poderá ser de 15 a 20 horas semanais. Com tempo para estudar mais, viajar e experienciar a vida com possibilidade reais de fazer escolhas. Condições materiais para isso há. O sistema teria de mudar e o investimento no ser humano seria de fato real. Com a economia planificada, a poluição irá diminuir e teremos mais controle ambiental. A devastação ocorre por uma questão de ganância para enriquecimento ilícito. Não haverá bilionários morrendo em aventuras perigosas no fundo do mar. Não haverá bilionários para isso. E a liberdade? A democracia?
Existe um espantalho em torno do que é uma democracia. O presidente do Brasil, Lula da Silva, falou em uma entrevista que democracia é algo relativo. E foi duramente criticado por algo que estava certo. A noção de democracia e liberdade tem sido relativizado. É evidente. Os Estados Unidos têm em torno de 50 milhões de pessoas passando fome em seu solo. No texto de Mariana Sanches (2023) para a BBC, há discussões sobre o afrouxamento das leis para o trabalho infantil no país estadunidense. Para eles, isso é democracia. Para um mundo que "anda para frente", isso é retrocesso. Alguém lembra da Revolução Industrial inglesa? Pois é...
Existem nações com políticas de neoliberalismo, liberalismo, bem-estar social aliadas ou não a ditaduras. Basta ver a Ucrânia, Arábia Saudita, Hungria e Bielorrúsia. O que é uma ditadura? O conceito também é relativizado. A mídia hegemônica pinta ditadura como um Estado totalitário que priva a liberdade do seu povo. Além de perseguições e uso abusivo da força. Algumas ditaduras lançam mão da força bruta da polícia e das forças armadas para reprimir a população e perseguir opositores. Em outros casos, os aparelhos ideológicos já dão conta dessa opressão, situação em que os poucos resistentes não oferecem risco ao Estado de controle. O que dá ainda mais a falsa sensação de liberdade. Sobre aparelhos ideológicos, sugiro a leitura de Louis Althusser (1985).
Não é honesto dizer que não se tem controle numa sociedade capitalista como Brasil, Estados Unidos ou Espanha. Quando se tem milhões passando fome, sem acesso a moradia, comida, saúde e educação, onde está a democracia? Onde está a liberdade quando não se pode falar a própria língua? Onde está a autonomia de uma região quando a capital de um Estado começa a sucatear essa região para impedi-la de ser autônoma e requerer independência? Ser livre é ter acesso aos bens essenciais para uma vida plena. Defender a democracia que nos é imposta pelo modelo vigente é aceitar que a liberdade dos mais ricos seja assegurada às custas dos mais pobres trabalhando e tendo cada vez menos acesso. Liberdade é um conceito material, mas os medios de comunicação invertem essa liberdade para algo abstrato. Enxergando ditadura nos outros medios de governo, mas não em si mesmo. Inventam que numa economia planificada não se pode viajar, conhecer o mundo. Quantos trabalhadores que recebem apenas um salário mínimo conseguem conhecer o mundo hoje? A classe dominante defende a liberdade de sua própria classe. E com bombardeamento ideológico lança suas aspirações para a classe trabalhadora como se fossem universais.
Alguns lugares do mundo, como países de bem-estar social, essa diferença entre classes é menor, mas tende a aumentar, pois a lógica de acúmulo de capital avançará também nos países desenvolvidos. E começa com privatizações da saúde, educação, aumento do custo de vida, com desculpas de melhorias e progresso quando na verdade é para enriquecer os mais ricos e empobrecer a classe trabalhadora. Quem ganha com a privatização da saúde? Com certeza, é alguém que vai "investir alto", logo, alguém que detém muito capital. E em troca vai querer lucro. Serviços com a menor qualidade possível para o lucro maior possível. Serviços públicos não visam a lucros e são gratuitos. Um é "sem dinheiro, sem saúde" e o outro é "qualidade alta e gratuidade". É difícil escolher, não é? Sem exceção, povo de todos os países que citei vem escolhendo a primeira opção.
Quanto mais se inventam narrativas de "paz celestial", irmandade em nome de um ser divino, mais o planeta se torna uma barbárie: guerras por petróleo, existência criminosa de bilionários, competição em todos os níveis entre as pessoas, falta de empatia, opressão de mulheres, não-brancos, LGBTQI+, deficientes físicos e intelectuais... enfim.... Um ditadura disfarçada de democracia, trabalhadores são os escravos do século XXI. E são colocados uns contra os outros, pois com escassez de trabalho, cria-se a lógica da competição. E assim, não nos unimos contra o sistema, mas individualmente, defendemos o que nos oprime e nos mata lentamente.
As pessoas precisam olhar para elas mesmas. Isso faz diferença. No Brasil, uma classe média (que se acha rica) jamais faria o trabalho de sua faxineira e nem aceitaria receber o que os auxiliares de limpeza recebem, mas acham justo pagar isso a esses profissionais. Como existem classes, quem está um pouco acima quer oprimir quem está um pouco abaixo. Numa crise, só escapam aqueles que não estão nas classes, os ricos (1% da população mundial). Estamos fazendo uma união duvidosa. Sem heranças e apenas com serviços públicos, tenho certeza de que teríamos acesso de maneira universal a tudo de que necessitamos: trabalho, lazer, moradia, educação, salário justo e cuidados. Do contrário, estudar, morar, viajar ainda serão priviégios de poucos.
Essas mudanças a curto prazo não serão viáveis. E muitos trabalhadores, imersos nos espantalhos criados pela classe dominante, vão resistir e defender o sistema que os oprime. As mudanças devem ser graduais e aproveitemos ainda o poder do voto. Devemos votar em partidos que sejam contra privatizações, que promovam políticas públicas de distribuição de renda, que promovam a industrialização, que estejam preocupados em gerar empregos, que cuidem do meio-ambiente, que defendam a cultura local, que ampliem o ensino público de qualidade, que invistam na saúde gratuita e universal, que não sejam machistas, xenófobos nem classistas. Países em desenvolvimento como Brasil e Argentina devem respirar um ar de esperança em apoiar governos que olhem para toda a população. E países da zona do Euro devem tomar cuidado para que uma relativa estabilização não seja destruída pouco a pouco com medidas de piora nas condições de vida dos europeus. E aos EUA só me resta dizer que é o último lugar do mundo para onde eu iria.
Obrigado pela visita e pelos comentários.
"AINDA NÃO ME CONFORMEI COM A FALTA DE LOUCURA DESSA NORMALIDADE DESUMANA."
REFERÊNCIAS
ALTHUSER, Louis. Aparelhos ideológicos do Estado. Tradução de Walter José Evangelista e maria Laura Viveiros de Castro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
FOME cresce no mundo e atinge 9,8% da população global. ONU News. 06 jul. 2022. Disponivel em https://news.un.org/pt/story/2022/07/1794722 Acesso em 16 jul. 2023.
GIANNETTI, Eduardo. Igualdade de quê? Folha de São Paulo. 13 fev. 2014. Disponível em https://m.folha.uol.com.br/opiniao/2014/02/1411372-eduardo-giannetti-igualdade-de-que.shtml Acesso em 16 jul. 2023.
OS recursos naturais do planeta estão a esgotar-se. Pode a eletricidade “verde” mudar alguma coisa? Observador. 12 out. 2020. Disponível em https://observador.pt/2020/10/12/os-recursos-naturais-do-planeta-estao-a-esgotar-se-pode-a-eletricidade-verde-mudar-alguma-coisa/ Acesso em 16 jul. 2023.
SANCHES, Mariana. Como país mais rico do mundo está afrouxando leis contra trabalho infantil. BBC. 26 jun. 2023. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce5n267xme3o Acesso em 16 jul. 2023.
TAXA de desemprego. Lista de países. Trading Economics. 2023 Disponível em https://pt.tradingeconomics.com/country-list/unemployment-rate Acesso em 16 jul. 2023.