Olá! Sejam bem-vindos a mais um texto da Loucura!
Hoje, uma reflexão sobre o poema de Fernando Pessoa.
Chuva Oblíqua
(Fernando Pessoa)
A metáfora no poema.
Lemos o poema de Fernando Pessoa e podemos perceber as
várias metáforas em seus versos. O objetivo desta reflexão interpretativa é
construir os sentidos do texto por meio dessas metáforas.
Podemos começar pelo título: Chuva Oblíqua.
Não é qualquer chuva, e sim, uma chuva oblíqua, chuva que
não cai reto, não cai simplesmente. É uma chuva que causa efeito. O título já
aparece como grande metáfora. Já que Oblíqua possui um leque de sentidos, não
somente o literal de torcido, diagonal.
“Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia”
A igreja, no verso, está dentro da chuva. Como é possível? São dois elementos inseparáveis, um contendo o outro. Para entender essa proposição e outras que aparecem durante todo o poema, vamos partir do macro para o micro. Vamos tentar desvendar a grande metáfora do texto e depois, como cada metáfora menor a constrói.
Durante todo o poema, há a chuva, a rua, o barulho fora da igreja “junto” com as cenas internas da igreja. Os versos são construídos não por oposição, mas por complementação. Um é parte do outro. Um elemento é o outro. “A missa é um automóvel que passa”.
Como grande metáfora, podemos dizer que tudo acontece ao mesmo
tempo e não há possibilidade de termos uma experiência de cada vez. Sentimos,
ouvimos e vemos tudo ao mesmo tempo. Estamos no mundo e dele participamos. O
poeta oferece a experiência para que sintamos todas essas sensações
conscientemente. A missa é a missa, os carros fora da igreja são os carros, e a
chuva é a chuva. Mas tudo acontece ao mesmo tempo, as paredes da igreja não
evitam que sintamos a chuva, pois se a ouvimos, ela está presente. O poeta
quebra todas as barreiras.
“Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia”
Quando as luzes da igreja se acendem, há chuva. Chove enquanto os fiéis se preparam para rezar. A chuva está dentro da igreja, pois é ouvida. Portanto, a igreja está dentro da chuva.
“E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça”
Mais velas acesas, mais chuva. São elementos diretamente proporcionais.
“Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso”
Dizer que a chuva é o templo estar aceso é relacionar novamente a chuva e a igreja (missa), elas se alimentam constantemente como dois eventos interdependentes. Enquanto chove, as pessoas estão dentro da igreja e, por isso, está acesa.
“E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro”
Aqui, as barreiras são quebradas novamente. A chuva penetra na igreja e por fora vê-se a igreja. Quem está dentro sente a chuva pelo som. Não há isolamento. O poeta argumenta com força ao propor que não existem barreiras.
“O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Mais sensações são misturadas nesses versos. Misturam-se imagens, sensações e
sons. Os elementos não são puros. Estão misturados. Ouve-se a missa e o vento
que sacode a vidraça. Ouve-se o chiar da água e o coro. Vê-se a chuva e o
altar.
“A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste..”
O automóvel, por seu barulho, penetra na igreja e atravessa os fiéis que se confessam. O automóvel está fora e dentro da igreja.
“Súbito vento sacode em esplendor maior
A voz do padre, o som do automóvel e o barulho da água se confundem. Estão todos juntos.
“E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...”
A chuva cessa e as luzes se apagam. Um não depende do outro. Os dois acontecem simultaneamente. Quando acaba a missa, a chuva também passa...
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"INUNDEI-ME DE VERSOS INCANSÁVEIS, LOGO, RENOVEI MINHAS ENERGIAS COM TODA ESSA LOUCURA UNIVERSAL."