Olá! Como estão? Espero que bem.
A crônica argumentativa de hoje é sobre um texto publicado na Folha de São Paulo pelo jornalista Sérgio Rodrigues no dia 05 de abril de 2023. E a sua publicação versa sobre a imposição da norma linguística da língua portuguesa, no Brasil. O título de seu texto é "Abaixo a norma curta do português!". Adianto que o texto tem boas intenções, mas comete alguns deslizes de quem não conhece intimamente a ciência linguística. Compreensível.
No subtítulo, já apresenta a ideia de que "a indústria de concursos e consultórios gramatiqueiros fazem mal à língua". Será mesmo? O problema são os concursos que exigem o padrão da língua e/ou os professores de gramática que ensinam esse padrão aos alunos e aos concurseiros? Afirmar isso como verdadeiro é tratar o sintoma em vez da causa. Talvez seja melhor discutir se a norma está de acordo com o que se fala no território brasileiro.
"Norma Curta" é o nome que o linguista brasileiro Carlos Alberto Faraco dá à norma padrão do português. Esse nome é elogiado por Rodrigues, afirmando que essa norma no Brasil surge de um "apego acrítico à variedade lusitana". Aqui há um erro histórico, ainda que aceitável diante da evolução dos termos científicos como lusofonia (ligado à língua portuguesa) e lusitano (como sinônimo de povo português). Historicamente, o português não é uma língua lusitana, mas galega. O Reino Medieval da Galiza dividiu-se em dois no século XII. A parte de cima seguiu sendo Galiza e o parte sul mudou o nome para Portugal. O mesmo ocorreu com a língua, que era a mesma. O galego falado no sul foi batizado séculos depois como "português". Pouco a pouco, estudos galegos, portugueses e também brasileiros estão vindo à tona para explicar melhor o passado da língua portuguesa falada no Brasil.
Sobre a distinção entre norma curta e norma culta também apresenta problemas, ainda que a ideia central seja válida. O que existe é uma norma padrão, isto é, uma norma oficial que é uma artificialidade, e que ninguém fala 100% de acordo com essa norma, até porque é defasada e de demorada atualização. Ela foi feita e é atualizada, muitas vezes, de acordo com os modelos literários. Essa gramática precisa de atualização constante. Entretanto, não dá para sair mudando tudo a qualquer hora, pois existe um tempo de uso para essas mudanças serem incorporadas ao modelo de língua e também deve haver um consenso entre os gramáticos brasileiros. Mesmo que um escritor ou outro use uma construção, esse uso precisa ter ocorrências significativas para sugestão de alteração na norma.
Outro ponto interessante de se destacar é que o Brasil tem uma gramática própria. Já apresenta algumas diferenças na norma em relação ao modelo português. Logo, o que é cobrado em concursos no Brasil parte da gramática brasileira da língua portuguesa. Como exemplo, nos verbos bitransitivos, no caso dativo, em que a preposição no Brasil tem mais diversidade, sendo elas: "para", "de" e "a". Em Portugal, nos verbos de transferência, as preposições são mais reduzidas:"a" como dativo e "para" no complemento do acusativo.
Explicado o padrão, é relevante dizer que a norma não se opõe às variantes faladas por seu povo. Desse modo, não se opõem norma padrão e variante culta (modo de falar das pessoas com maior formação acadêmica). Sim, o falar culto é uma das tantas variantes faladas em qualquer país, ainda que seja a variante que mais se aproxima da norma. E segundo o autor, a variante culta é que deveria ser ensinada com mais eficiência. Também é uma fala problemática. Ensinando essa variante como referência não é torná-la uma norma? Deixo essa pergunta retórica como reflexão.
Para resolver esta questão (e não é falada explicitamente no texto), podemos refletir sobre a atualização da norma e ajustá-la para o modo como, de fato, os brasileiros estão falando. Uma língua primeiro é falada, depois é escrita. Uma norma não deve vir antes da língua. E devo acrescentar que a norma é importante, sim. É ela que assegura a unidade da língua e a sua existência. Do contrário, é mais difícil de manter essa unidade nos documentos oficiais e no ensino. Quiçá no Brasil seja menos visível essa dificuldade considerando que somos em 90% do território um país monolíngue (não entrarei aqui na discussão do extermínio das línguas nacionais - as indígenas). Num país que há mais de uma língua falada, a norma irá assegurar sua existência legal e até de estimular o seu uso. O problema do Brasil não é ter uma norma, mas de atualizá-la. Há estudos (como os de Marcos Bagno) que já não defendem a unidade linguística entre Brasil e Portugal. O que isso quer dizer? Significa que a língua muda, evolui e se torna diferente a cada passagem de tempo.
Agora um ponto com o qual concordo no texto de Rodrigues: a transformação do ensino de língua em práticas de decoreba mata todas as potencialidades. Aula de língua deveria ampliar as possibilidades cognitivas, não promover simples decorebas e diminuir usos tipicamente regionais. A crítica ao sistema de ensino de língua materna procede. Muitos professores corrigem, das redações dos alunos, praticamente, toda a parte gramatical e se esquecem do mais importante: a organização das ideias. O autor também cita as estruturas engessadas de se fazer uma redação nota 1000 para o ENEM e para os vestibulares. Muitas vezes, uma receita decorada e com citações "coringas" de autores que nunca foram lidos pelos alunos. Isso não é ensino de língua. O problema não é o que é ensinado, mas como é feito.
Há uma fala problemática sobre não ser um bom leitor por dominar a "norma curta". Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não existe relação nesse silogismo. Uma pessoa que domina a norma de uma língua pode também ser uma pessoa crítica (como os linguistas citados por Rodrigues: Bagno e Faraco). Claro que podemos fazer um esforço mental e lógico para inferir que um grupo de alunos que estudou com professores "norma-curtistas" não teve todo o desenvolvimento cognitivo e crítico nas aulas de língua. Com uma formação reduzida a decorebas e a pouca interpretação do mundo pela língua, espera-se, realmente, pessoas que tenham uma visão mais reduzida de mundo e com poucos recursos interpretativos. Contudo, é só uma suposição. Do mesmo modo, como afirmar que alguém que só sabendo a variante culta, uma pessoa será uma boa leitora. São tão perigosas essas relações entre ser um "norma-curtista" e "aprender a variante culta" sem passar pela norma que só consigo afirmar que o autor "nem consegue estar errado" no que discute. Espero ter deixado claro o que eu vejo de tão incoerente.
Um exemplo interessante e cirúrgico é o do cartum. Nele, um rapaz diz a uma moça "Te amo!". E a moça responde com "Não se pode começar frase com pronome oblíquo átono". É um ótimo material e deveria só ter ficado nele, explorando os efeitos de sentido da mensagem, da correção e de qual personagem representaria a "norma curta". A preferência pela próclise no Brasil contradiz o que a norma prescreve. Poderia até dizer que a variante culta existe no dia-a-dia, a norma só na artificialidade; ainda que esse desvio apareça praticamente em todas as variantes brasileiras.
Além de tudo isso, há uma questão que ainda me preocupa. Eu entendi a crítica mesmo que não concorde com todos os argumentos dados. Mas será que todos os leitores entenderam? Nem todo mundo tem esse conhecimento específico para relacionar os exemplos dados e corrigir os deslizes do autor. Lembra-me muito quando Luis Fernando Veríssimo, famoso cronista brasileiro, disse que não sabia gramática. Claro que foi uma fala dúbia e até certo ponto irônica. Mas qualquer pessoa poderia entender isso literalmente. Preocupar-se com seu público-alvo é também uma habilidade que o ensino de língua deveria proporcionar.
A intenção do autor foi boa, mas considero que apresenta muitos deslizes e "achismos" num assunto tão sério. Ficasse na crítica do ensino, do preconceito linguístico e do cartum. Foi se aventurar em discussões sobre as quais tem pouco ou nenhum domínio. Um texto deveras preocupante.
Referência da Folha.
RODRIGUES, Sérgio. Abaixo a norma curta do português! Folha de São Paulo. 5 abr. 2023. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2023/04/abaixo-a-norma-curta-do-portugues.shtml Acesso em: 4 mar. 2025.
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