quarta-feira, 19 de abril de 2023

Novo Ensino Médio - Abril de 2023

 Olá, tudo bem?


Como prometido, um texto sobre a questão educacional do Brasil, mais especificamente sobre o Novo Ensino Médio, cujo inicio de implementação ocorreu em 2021, em todo território brasileiro. 

Não vou repetir nesta crônica o que já havia dito nos textos de 24 de agosto de 2022 (Só a educação não salvará o Brasil) e de 05 de abril de 2023 (O Novo Ensino Médio em xeque); caso não os tenha lido, vale a pena dar uma passada por eles.

O discurso de hoje foi inspirado por dois episódios dos criadores de conteúdo Medo e Delírio em Brasília. O primeiro episódio é do dia 14 de abril de 2023 (Dias 100 e 101 - A pressão não se justifica)  em que no fim do episódio, há uma fala do pesquisador e doutorando em ciências da aprendizagem, pela New York University, Fábio Campos. O segundo é de hoje, dia 19 de abril de 2023 (Dias 102 a 106 - Deu errado) em que o episódio todo é sobre o Novo Ensino Médio, motivado pelas falas de Campos, no episódio anterior. Recomendo ouvir os dois. 


Iniciando pelas falas de Fábio Campos. O pesquisador inicia sua participação dizendo que daria "um puxão de orelha" no campo progressista por conta de suas críticas ao Novo Ensino Médio (NEM). Diz que a reforma é uma oportunidade de modernizar a escola brasileira, com disciplinas que possam ampliar a visão do aluno por meio dos itinerários. Chega a dizer que a criação do NEM ocorreu no governo da predidenta DIlma Rousseff. 

Bem, realmente, o Ensino Médio (EM) como estava desistimula muito a sociedade e não tem funcionado. Porém, precisamos pensar sobre qual EM estamos falando. Há pelo menos três modelos. O tradicional da rede estadual, o das escolas técnicas (em São Paulo, a rede Paula Souza com as Etec´s) e os intitutos federais. O grosso mesmo é da rede estadual, em torno de 97% de cobertura (podendo variar de estado para estado). São escolas, em muitas vezes, sem estrutura mínima para desenvolver uma boa educação aos jovens. Quando falo de estrutura, não é só questão física. Isso pesa muito também, claro. Mas além de escolas com poucos recursos materiais (salas, carteiras, internet, espaços audiovisuais etc.), há também problemas de recursos humanos (professores e funcionários). Aulas vagas, salas misturadas, recreação e dispensa antecipada dos alunos são realidade no cotidiano brasileiro. Além de tudo isso, há a questão social, pois essas escolas estão majoritariamente nas áreas mais pobres das cidades, logo, seu público é carente do mais básico (vestimenta e alimento). São crianças e jovens que vivem em lares desestruturados muitas das vezes, e lares violentos e que acabam reproduzindo essa violência nas escolas. Na teoria, recriar uma escola mais moderna, com mais tecnologia e mais liberdade para os alunos em um ambiente precário torna-se um sonho idílico.

Na questão sobre a proposta ter surgido no governo Dilma, ficaram faltando algumas informações. O plano nem se desenvolveu, ficou parado, pois não coadunava com os ideias dos governos petistas. Se fosse para fazer um ensino técnico, já existiam os institutos federais ou escolas estaduais técnicas ou o próprio PRONATEC. Desse modo, dizer que foi uma proposta da esquerda e por isso não poderia sofrer críticas da esquerda soou um tanto estranho. 

Contudo, Campos traz uma visão interessante sobre o NEM. Não penso que ele defende o modelo como está (embora algumas pessoas tenham-no criticado por isso), apenas quis apontar que a ala progressista (esquerda) ataca um projeto que poderia dar elementos para uma reforma educacional que ampliasse as possibilidades de aprendizado e estivesse mais alinhado com o sonho da educação crítica. O próprio pesquisador, no episódio seguinte, retrata-se dizendo que se expressou mal. Um ponto de concordância com ele, é a possibilidade de tantas escolhas para os jovens. Ele diz que acredita que os jovens brasileiros, neste momento, talvez não fossem capazes de escolher quase metade do currículo por conta própria. E, sim, temos que amadurecer esse currículo de opções e ir flexibilizando aos poucos, desde que se tenha uma educação melhor. Educar para a autonomia não é algo fácil, e o Brasil não o tem feito. Fábio inflamou o debate os criadores do Medo e Delírio em Brasília fizeram o episódio seguinte apenas sobre o NEM.


No segundo episódio que abordarei aqui, o início é com as falas do Professor Fernando Cássio (UFABC e REPU) rebatendo as falas de Fábio Campos. O professor traz os dados da situação real do Brasil, esses que já apresentei nos textos anteriores e nas referências. O Brasil tem 88% da rede de ensino sendo pública, desse modo, é a grande maioria que vai experimentar os grandes problemas gerados pelo NEM. A comparação com a rede privada apenas resume o que já foi falado por ministros e políticos brasileiros nos últimos anos: educação não é para todos. Essa reforma ilustra isso muito bem, pois a rede privada mantém a grade curricular com todas as disciplinas científicas exigidas nos vestibulares brasileiros e no ENEM (EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO), além de acrescentar ofertas de itinerários críticos, variados e interdisciplinares. Oferta essa que não ocorre na rede pública, onde muuitas vezes há apenas um ou dois itinerários (geralmente relacionados com o sub-emprego).

Para resumir as falas de Cássio, as promessas liberais para a educação não se realizam,pois não a possibilidade de escolhas pelos alunos, há o estreitamento do curriculo e negação ao acesso ao conhecimento. O que o Estado oferece é menos escola para quem mais precisa de escola. Mesmo que houvesse um ensino tradicional nos modelos do século XIX mas bem feita, o Brasil teria uma população bem mais educada. Portanto, o básico não está sendo feito, quanto mais diversificar todo um sistema precário. Liberdade não tem relação com escolha, mas sim com acesso ao conhecimento e formação plena. A maioria  dos alunos brasileiros terão ainda mais defasagem para disputar vagas em universidades. Garantindo que essas vagas continuem a ser preenchidas pelos mais ricos. Aliás, aproveito o ensejo para me colocar contra o vestibular, pois em um país desigual, aumenta ainda mais os privilégios das camadas mais altas da população. 


Gostaria de comentar uma reportagem da Folha de São Paulo, do dia 16 de abril de 2023, de Isabela Palhares, cujo título é Alunos ficam sem aula de biologia, história e química no 3º ano do novo ensino médio em SP. https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/alunos-ficam-sem-aula-de-biologia-historia-e-quimica-no-3o-ano-do-novo-ensino-medio-em-sp.shtml No texto, é dito que São paulo foi o primeiro Estado a implementar as mudanças curriculares. Essa antecipação foi feita pelo então governador João Dória já em 2021 (um ano antes do restante do país), terminando assim a implantação em 2023. Para justificar o título da reportagem, Isabela Palhares traz o número de aulas de cada disciplina na grade anterior e na nova. 

Na grade curricular antiga, Português e Matemática tinham 5 aulas em cada ano do EM. Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia, inglês, Educação Física e Filosofia tinham 2 aulas em cada ano. Na nova grade, Português e Matemática, têm 5 aulas no 1º, 3 no 2º e 2 no 3º. Já Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia e Filosofia têm 2 aulas no 1º ano e 2 aulas no 2º, sumindo da grade no 3º ano. Dessa forma, os alunos do 3º ano do EM, da rede pública de SP, estão sem aulas de todas essas discipinas (Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia e Filosofia). Considerando que esses alunos têm o direito de prestar vestibulares e o ENEM em 2023, como estarão preparados se mais da metade da grade de conteúdos comuns não estão sendo ofertados? Novamente, quem mais precisa é quem menos recebe. Diversos meios de comunicação têm denunciado a diminuição das disciplinas básicas e itinerários descolados do que é cobrado em vestibulares. Além de que muitas escolas nem têm a oportunidade da escolha de itinerários. 

Palhares (2023) também traz a fala de um professro que, em alguns momentos, ignora o conteúdo dos itinerários para ensinar geografia (sua disciplina), pois considera injusto os alunos não aprenderem o que deveriam. Ainda na reportagem, a fala de Anna Helena Altenfelder, presidente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação), resume bem a questão da desigualdade: "as escolas particulares continuam ofertando todas as disciplinas regulares em todos os anos. Elas não abandonaram essas matérias porque sabem que precisam preparar seus alunos para os vestibulares".

No fim de seu texto, traz falas do ex-secretário de educação do Estado de São Paulo (hoje atual secretário de educação do Estado do Pará), Rossiele Soares, que defende o NEM. Depois de tudo que já foi publicado e com dados, a fala do secretário me parece um tanto política e totalmente fora da realidade: "a rede estadual definiu por não ofertar os itinerários na primeira série do ensino médio e concentrar mais na terceira série pelo fato de o estudante estar com mais maturidade e autonomia, dando a ele mais oportunidade de se aprofundar nas áreas de seu interesse nesse estágio de conclusão". E completa: "na verdade, o estudante tem a mesma carga horária de aulas, com mais aulas dos itinerários, que aprofundam o conhecimento da área de conhecimento da escolha dele."

Sim, essa é a visão da classe dominante que implantou essa engenharia criminosa de segregação e que não usam o sistema de educação público para seus filhos, netos, sobrinhos e parentes em geral. Uma visão distorcida da realidade, pois os dados e as pesquisas demonstram justamente o contrário: defasagem, diminuição da carga horária das disciplinas básicas, desmotivação dos alunos e professores, falta de estrutura das escolas, ganhos para a iniciativa privada (por conta dos convênios com as Secretarias de Educação e a formação da futura mão-de-obra barata), aumento da desigualdade social e ampliação dos privilégios para os mais ricos. A consulta pública que iniciará em maio /2023 pelo governo Lula é premente. A questão é ter que trocar o motor do carro com ele em movimento...


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"INCRÍVEL COMO QUEM VIVE BEM É INCAPAZ DE VER OS QUE NÃO POSSUEM OS MESMOS PRIVILÉGIOS. QUE LOUCURA ESSE MAR DE INSENSIBILIDADE!" 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Uma explicação sobre o texto de 09 de março de 2023

 Olá, tudo bem?


Antes de mais nada, preciso explicar a razão deste texto. 

É um esclarecimento da crônica do dia 9 de março de 2023, cujo título é Galego: Lingua nai de toda lusofonía.


Devo agradecer, antes de tudo, ao amigo Guel de Miranda, que me ofereceu críticas muito construtivas ao referido escrito. A partir dessas críticas, pensei em escrever esta nova crônica argumentativa (não a classifico como um artigo por conta de estrutura e rigor).


Alguns pontos devem ser explorados a seguir: 

a) Sou brasileiro;

b) Questão filológica e política;

c) Questão do nacionalismo galego;

d) Minha posição.


Sou brasileiro


Por que esse ponto é relevante para este texto? Simples. Minha formação toda foi no Brasil até este momento. E mal sabia da existência da Galiza, da situação linguística e política de seu povo. Vim para a península ibérica para estudar in loco. E claro, não só pelos livros, mas com os amigos galegos e portugueses.

O fato de eu morar há pouco tempo na Galiza (Corunha) não me isenta de eventuais erros ou falhas em minhas manifestações. Apenas quero dizer que estou aberto a críticas, sugestões de leituras, de passeios e conversas. Ninguém melhor do que a gente que vive aqui para me dar essas coordenadas. 


Questão filológica e política


Neste ponto que talvez eu não tenha me expressado bem. Há uma diferença muito grande entre as discussões filológicas e políticas quando se trata de Estados com mais de uma língua oficial, principalmente quando não há equidade entre elas.

Primeiro problema que não ficou claro no meu texto anterior está na seguinte passagem:

"O galego é a lingua materna de todas as variantes do portugués. A lingua hoxe de todas as variantes non se chama galego por razóns políticas."

Dessa forma, afirmo que a língua galega é mãe do português. Essa afirmação não foi no eixo filológico, mas sim, numa provocação nacionalista. Do ponto de vista filológico, essa afirmação não se sustenta. Vou apresentar dois cenários:

I - O galego e o português são línguas diferentes. Dessa forma, as duas têm uma origem comum desde o Reino Suevo, passando pela dominação dos Visigodos,tornando-se o Reino da Galiza (em referência à Galaecia). Com a independência de Portugal, houve um distanciamento da variante do sul (português) que se desenvolveu de forma autônoma, principalmente pelo controle linguístico do novo Estado e a preocupação do fortalecimento da identidade linguística. Já a Galiza , que esteve sob a tutela de Castela cuja língua é o castelhano (castelán), não pôde ter esse controle, pois não tinha a língua de governo, embora o galego fosse respeitado como língua de cultura. Outro ponto importante é que as línguas oficiais (antes vernáculos - ou simplesmente linguagem) foram se oficializar séculos a frente da independência de Portugal mesmo, que já houvesse a preocupação de se diferenciar da variante do norte. 

Então, as duas línguas surgiram juntas, o que impossilita de uma ser mãe da outra. Com o passar do tempo, por questões políticas, elas se desenvolveram de maneiras distintas.   

II - o galego e o português são a mesma língua. Se são a mesma língua, estou falando de uma unidade linguística como é o português do Brasil, português de Angola e de todos os países para os quais Portugal levou a "última flor do lácio".  Sendo assim, não há como se falar de parentesco ou ascendência. Não há como ser mãe / pai de si mesmo. 

A questão política determina muitas vezes o status de uma língua. Isto é, se é um dialeto, uma língua, uma variante ou uma língua autônoma. Existem diversos exemplos de línguas que recebem seu status de acordo com o poder econômico do país que as denomina. Não vou explicar caso a caso, mas uma pesquisa, mesmo que no google, trará respostas interessantes (ainda que superficiais) sobre o cabo-verdiano; norueguês e dinamarquês; luxemburguês; romeno e a Moldávia; as línguas da Bélgica, as línguas da Africa do Sul, as línguas minoritárias na Península Ibérica e da Alemanha etc.   

O que nos serve neste momento é que a questão atual da separação da Língua Portuguesa do Galego (tidas como línguas irmãs) deve-se a questões políticas e nada mais do que isso. São escolhas a partir dos estudos apresentados e dos postulados que sao seguidos. Do mesmo modo, o que mantém a unidade Lusófona pelo mundo é a questão política, embora haja estudos que já discutam que o Brasil fala brasileiro, e não mais português. Não estou defendendo aqui um ou outro ponto, mas demonstrando que as decisões são tomadas a partir de um complexo sistema de escolhas.


Questão do nacionalismo galego


Considerando as questões anteriores, de onde surgiu a expressão "Galego é mãe de toda a lusofonia"? Bem, a ideia não era distocer a história, mas apenas fazer uma provocação retórica. Se Portugal tornou-se independente falando a mesma língua da Galiza e depois batizou essa língua com o nome da nação independente, levando-a para o mundo afora, por que não poderia "sugerir" dizendo que a língua batizada posteriormente é filha da Galiza?

Esse discurso pode ser aproximado do nacionalismo galego. Mas falo aqui de um nacionalismo que distorce a história se fosse o caso. Não era a impressão que eu gostaria de ter passado. É como se fosse uma resposta aos portugueses que defendem que Portugal é oriundo da Lusitânia e não "deve nada" à Galiza. Mas dizer que Portugal deve algo à Galiza também é um nacionalismo cego. 

Grande parte dos galegos se acham irmãos dos portugueses e vice-versa (pelo menos os portugueses do norte). Há uma boa relação entre os povos. E que continue assim.

Nenhum extremismo é interessante para discussões dessa natureza. Em verdade, em nenhuma situação. Tive de explicar "a piada" (de maneira análoga), mas se só eu dei ridada, deixa de ser piada. Logo, reconheço que não me expressei bem no texto já citado.


Minha posição


Diante do exposto, claro que tenho uma posição. E creio que está mais do que evidente, entretanto, farei questão de explicá-la. Minha posição como investigador é que a língua portuguesa e o galego, hoje línguas independentes (embora irmãs), são a mesma língua. Claro que há diferenças, que não são maiores do que as diferenças entre as variantes do inglês que correm o mundo ou do próprio português falado em 4 continentes. Claro que a língua é a marca cultural de um povo e vai se moldar de acordo com a realidade local, o que não impede a comunicação com outras regiões que tenham a mesma estrutura linguísitica.

A situação da perda de falantes do galego, na Galiza, incomoda-me muito, pois é uma região que preserva muitos traços do período galego-português. Faço defesa do galego, mas não quero distorcer a história ou fazer falsas dissertações. Simbólica (e historicamente), a região da Galaecia é o berço do romance que originou o galego e o português (na atual divisão) ou a língua que é falada por mais de 250 milhões de pessoas. O português, de fato, é o galego que surgiu no norte e desceu para o sul. De defender essa unidade, eu não abro mão. Viva Galego! Viva Galiza!


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"CADA UM VÊ COM OS OLHOS QUE TEM E COM A LOUCURA QUE POSSUI!"

quarta-feira, 5 de abril de 2023

O Novo Ensino Médio em xeque

 Olá! Tudo bem? 

Vamos falar sobre a catastrófica reforma do Ensino Médio e a sua suspensão?


Desde 2017, há discussões acaloradas acerca da BNCC e do Novo Ensino Médio, na educação brasileira. A reforma basicamente amplia o número de horas de 2.400 para 3.000 na grade horária do Ensino Médio. Entretanto, diminui a grade comum como ocorria até 2021 (pois 2022 foi o ano de início de implementação da reforma). Trago este assunto, porque ontem (04 de abril de 2023), o governo federal publicou no Diário Oficial que a implantação do Novo Ensino Médio está suspensa. 

No texto de Isabela Palhares e Paulo Saldaña, na Folha, no dia 03 de abril, "pelas novas regras, 60% da carga horária dos três anos são compostos por disciplinas regulares, comuns a todos os estudantes. Os outros 40% são destinados às disciplinas optativas dentro de grandes áreas do conhecimento, os chamados itinerários formativos". Dessa maneira, são 600 horas por ano com conteúdos básicos comuns (Português, Matemática, Biologia, História etc.) contra 800 horas que havia antes da reforma. Para saber mais sobre as opiniões no início do Novo Ensino Médio, recomendo o artigo de Ana Luiza Basilio e o de Débora Goulart, Fernando Cássio e José Alves da Silva, em que discutem as condições iniciais do projeto sendo implantado e seus desafios. 

Em 15 de março de 2023, estudantes protestaram em São Paulo pela revogação do Novo Ensino Médio, já que o novo governo federal é oposição aos dois governos anteriores (o que assinou a lei e o que implantou a reforma). Apesar da pressão, Camilo Santana (Ministro da Educação do governo Lula) não se colocou a favor da revogação do Novo Ensino Médio. "Ele defende ajustes no modelo e que a demolição da medida seria um retrocesso" (PALHARES, Isabela; SALDAÑA, Paulo, 2023). 

Essa mudança foi decidida por questões políticas e pela base aliada ao empresariado brasileiro, pois não houve consulta pública. Mesmo com muitas reinvindicações dos profissionais de educação (excluídos durante a decisão das bases), poucas mudanças foram concedidas à época (como a inclusão de filosofia, sociologia e artes, à grade comum). Logo, a suspensão "ocorrerá, inicialmente, no período previsto para a consulta pública sobre o tema. Iniciada em março, a consulta tem 90 dias de duração, com possibilidade de prorrogação, e mais 30 dias para o MEC (Ministério da Educação) elaborar um relatório que vai definir o futuro da política" PALHARES, Isabela; SALDAÑA, Paulo, 2023).

A reforma não está anulada, é apenas um período para haver diálogo real desta vez, com setores que não participaram outrora. As escolas têm autonomia para manter as adaptações, avançar na implementação de intinerários ou reorganizar sua grade (o que é bem complicado em se tratando do início do ano letivo). Outro ponto importante é a mudança que o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) sofreria em 2024 - ano em que, supostamente, a implantação do Novo Ensino Médio estaria completa - não vai ocorrer. Não será reformulado e se manterá como está hoje, no mesmo formato e com as mesmas exigências.

Laura Mattos, em seu artigo na Folha, ontem, intitulado Entenda o novo ensino médio e suas polêmicas em 8 pontos, apresenta questões bem pertinentes sobre a atual situação do sistema educacional brasileiro. A grade com as quatro grandes áreas a serem estudas pelos alunos recebeu mais uma área: formação técnica e profissional, com a justificativa de o aluno sair do Ensino Médio com uma profissão (o que na verdade tornar-se-ia a fabricação de mão-de-obra barata, além de afastar ainda mais esses estudantes dos bancos universitários). 

 Pontos que pesam contra o modelo (MATTOS, Laura, 2023): carga horária muito ampla (aumenta a evasão escolar daqueles que precisam trabalhar); sistema que esquece que mais de 80% das escolas são públicas (isto é, sem recursos humanos e financeiros para a estrutura demandada); diminui a carga horária tradicional em 600 horas no total (menos aulas das disciplinas básicas). No seu artigo, Laura Mattos também discute maneiras de dialogar para se resolver o problema, pois já houve investimento grande para suspender a reforma; entretanto, alguns ajustes poderiam ser feitos, como flexibilização dos itinerários e aumento da carga horária dos conhecimentos básicos. 

No artigo de Alexandre Schneider, na Folha de São Paulo, ontem dia 04 de abril, há a seguinte passagem: "A questão não é só política. Há problemas de desenho e implementação, que podem ampliar as já abissais desigualdades educacionais existentes". Para bem dizer a verdade, é uma questão política, sim. A reforma foi feita com intenções políticas, excluindo os profissionais da educação de debaterem a questão, além de privilegiarem os empresários para terem mão-de-obra barata, e de favorecerem os menos de 20% de alunos da rede privada que continuariam a ter a grade completa e com várias opções de itinerários (o que não está ocorrendo na rede pública), excluindo ainda mais as camadas populares das disputas por vagas em Univesidades Públicas. Da mesma forma que o governo Lula está abrindo o debate para manter sua posição de estadista numa sociedade que tem sua democracia fragilizada, também tem viés político. Claro que o modelo em vigor aumenta as desigualdades, que já eram muitas.

Há um outro trecho do artigo que me incomodou um pouco. Quando dá exemplos das escolas públicas, cuja maioria não tem recursos humanos suficientes nem financeiros para diversificar esses itinerários complementares das base comum. Logo, "um estudante que pretende estudar engenharia tem menos horas de matemática na FGB e deveria aprofundar seus estudos na área cursando itinerários formativos correspondentes. Quando a escola lhe nega o itinerário em matemática, está violando dois de seus direitos: o de escolher seu percurso acadêmico e o de se preparar para o curso universitário de seu interesse". A fala estaria correta se já houvesse no Brasil a chance das camadas mais sensíveis terem acesso ao ensino superior direto. Hoje, o Brasil tem apenas 15% da população com diploma de graduação mesmo com todo esforço dos governos petistas entre 2003 e 2016. Sendo que a maioria dos formados são das camadas mais abastadas que usam o sistema universitário público. A USP vem comemorando o aumento de alunos oriundos das escolas públicas; entretanto, ainda está longe de atingir os 80% desses discentes.

Na área de comentários, há um interessante, de um leitor. O comentário é de José Davi (como se identificou) e diz: "A Folha que denunciou a falta de professores é a mesma que prega pelo corte nas despesas do estado, mas esses cortes não podem afetar os credores rentistas? O garoto que vai fazer engenharia é apenas um fazedor de contas? Não pode ter uma percepção humana e artística ? Estranho esse pensamento da matemática como um fim em si mesma". O que me interessa nesse comentário são duas questões. O primeiro é o apontamento para a incoerência da Folha de São Paulo. Aqui, haja talvez falta de conhecimento do leitor sobre o fato de que os colunistas gozam de relativa liberdade em relação à opinião do jornal. Ou o leitor não se expressou bem sobre essa ser a opinião do articulista. 

O outro ponto reflete um pouco do que pensa a sociedade brasileira a respeito da formação escolar. Concordo com o leitor quando diz que as áreas podem ser complementares, isto é, uma formação integral. Criou-se no sistema educacional do Brasil a ilusão de que um estudante que tem propensão para a área de exatas não precisa desenvolver seus conhecimentos em gramática, literatura e história, por exemplo. E o contrário também se aplica. Quantos estudantes de humanas mal sabem desenvolver o raciocínio lógico, além dos baixos conhecimentos de física e química? 

Primeiro: a escola representa o ensino básico. Pressupõe-se que todos os estudantes tenham uma noção geral daqueles conhecimentos (mesmo que tenha uma maior dificuldade em uma área). O que ocorre é a negligência e o abandono dos conteúdos "com os quais não se tem afinidade". Segudo: a cultura que deveria ser meta, é deixada de lado por grande parte dos brasileiros, basta ver os números sobre leitura. No Brasil, há falências de livrarias (que já não são muitas). Dessa forma, a educação não cumpre o seu papel, pois além de formar mal os jovens (mesmo que se dedicassem a todas as disciplinas, pois o sistema "ensina" a passar no vestibular), cria-se essa imagem negativa dos próprios conhecimentos, esses que não seriam "importantes de aprender", normalizando a falta de cultura.  

Há grandes desafios para o governo petista, que entregou um Brasil no início dessa virada cultural a partir de grandes investimentos em ciência e construção de universidades públicas (além dos convênios com a rede privada), mas que foi paralisada por 6 longos anos de baixos investimentos, negacionismos e cortes imensos nos incentivos científicos (que já eram poucos).


REFERÊNCIAS 

BASILIO, Ana Luiza. Em São Paulo, a promessa de ‘liberdade’ da reforma do Ensino Médio não se concretizou. Carta Capital. 03 de jun. de 2022. Disponível em https://www.cartacapital.com.br/educacao/reforma-do-ensino-medio-trouxe-um-empobrecimento-da-formacao-dos-estudantes-diz-estudo/ . Acesso em 11 de jun. de 2022.

GOULART, Débora; CÁSSIO, Fernando; SILVA, José Alves da. Ensino médio nem-nem. Carta Capital. 02 de jul. de 2021. Disponível em 

https://www.cartacapital.com.br/opiniao/ensino-medio-nem-nem/ Acesso em 11 de jun. de 2022.

MATTOS, Laura. Entenda o novo ensino médio e suas polêmicas em 8 pontos. Folha de São Paulo, 4 abr. 2023. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/entenda-o-novo-ensino-medio-e-suas-polemicas-em-8-pontos.shtml Acesso em 5 abr. 2023.

PALHARES, Isabela; SALDAÑA, Paulo. Governo Lula vai suspender implementação do novo ensino médio e mudanças no Enem. Folha de São Paulo, 3 abr. 2023. Disponível em 

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/governo-lula-vai-suspender-implementacao-do-novo-ensino-medio-e-mudancas-no-enem.shtml Acesso em 05 abr. 2023.

SCHNEIDER, Alexandre. MEC precisa liderar a discussão sobre o novo ensino médio. Folha de São Paulo, 04 abr. 2023. Disopnível em  

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/mec-precisa-liderar-a-discussao-sobre-o-novo-ensino-medio.shtml Acesso em 05 abr. 2023.


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"CULTURA VAI TE MOSTRAR COISAS QUE NÃO VISTE. OU CRESCES OU CAIRÁS À LOUCURA. AMBAS TE SALVARÃO DE TI MESMO".