Olá, tudo bem?
Como prometido, um texto sobre a questão educacional do Brasil, mais especificamente sobre o Novo Ensino Médio, cujo inicio de implementação ocorreu em 2021, em todo território brasileiro.
Não vou repetir nesta crônica o que já havia dito nos textos de 24 de agosto de 2022 (Só a educação não salvará o Brasil) e de 05 de abril de 2023 (O Novo Ensino Médio em xeque); caso não os tenha lido, vale a pena dar uma passada por eles.
O discurso de hoje foi inspirado por dois episódios dos criadores de conteúdo Medo e Delírio em Brasília. O primeiro episódio é do dia 14 de abril de 2023 (Dias 100 e 101 - A pressão não se justifica) em que no fim do episódio, há uma fala do pesquisador e doutorando em ciências da aprendizagem, pela New York University, Fábio Campos. O segundo é de hoje, dia 19 de abril de 2023 (Dias 102 a 106 - Deu errado) em que o episódio todo é sobre o Novo Ensino Médio, motivado pelas falas de Campos, no episódio anterior. Recomendo ouvir os dois.
Iniciando pelas falas de Fábio Campos. O pesquisador inicia sua participação dizendo que daria "um puxão de orelha" no campo progressista por conta de suas críticas ao Novo Ensino Médio (NEM). Diz que a reforma é uma oportunidade de modernizar a escola brasileira, com disciplinas que possam ampliar a visão do aluno por meio dos itinerários. Chega a dizer que a criação do NEM ocorreu no governo da predidenta DIlma Rousseff.
Bem, realmente, o Ensino Médio (EM) como estava desistimula muito a sociedade e não tem funcionado. Porém, precisamos pensar sobre qual EM estamos falando. Há pelo menos três modelos. O tradicional da rede estadual, o das escolas técnicas (em São Paulo, a rede Paula Souza com as Etec´s) e os intitutos federais. O grosso mesmo é da rede estadual, em torno de 97% de cobertura (podendo variar de estado para estado). São escolas, em muitas vezes, sem estrutura mínima para desenvolver uma boa educação aos jovens. Quando falo de estrutura, não é só questão física. Isso pesa muito também, claro. Mas além de escolas com poucos recursos materiais (salas, carteiras, internet, espaços audiovisuais etc.), há também problemas de recursos humanos (professores e funcionários). Aulas vagas, salas misturadas, recreação e dispensa antecipada dos alunos são realidade no cotidiano brasileiro. Além de tudo isso, há a questão social, pois essas escolas estão majoritariamente nas áreas mais pobres das cidades, logo, seu público é carente do mais básico (vestimenta e alimento). São crianças e jovens que vivem em lares desestruturados muitas das vezes, e lares violentos e que acabam reproduzindo essa violência nas escolas. Na teoria, recriar uma escola mais moderna, com mais tecnologia e mais liberdade para os alunos em um ambiente precário torna-se um sonho idílico.
Na questão sobre a proposta ter surgido no governo Dilma, ficaram faltando algumas informações. O plano nem se desenvolveu, ficou parado, pois não coadunava com os ideias dos governos petistas. Se fosse para fazer um ensino técnico, já existiam os institutos federais ou escolas estaduais técnicas ou o próprio PRONATEC. Desse modo, dizer que foi uma proposta da esquerda e por isso não poderia sofrer críticas da esquerda soou um tanto estranho.
Contudo, Campos traz uma visão interessante sobre o NEM. Não penso que ele defende o modelo como está (embora algumas pessoas tenham-no criticado por isso), apenas quis apontar que a ala progressista (esquerda) ataca um projeto que poderia dar elementos para uma reforma educacional que ampliasse as possibilidades de aprendizado e estivesse mais alinhado com o sonho da educação crítica. O próprio pesquisador, no episódio seguinte, retrata-se dizendo que se expressou mal. Um ponto de concordância com ele, é a possibilidade de tantas escolhas para os jovens. Ele diz que acredita que os jovens brasileiros, neste momento, talvez não fossem capazes de escolher quase metade do currículo por conta própria. E, sim, temos que amadurecer esse currículo de opções e ir flexibilizando aos poucos, desde que se tenha uma educação melhor. Educar para a autonomia não é algo fácil, e o Brasil não o tem feito. Fábio inflamou o debate os criadores do Medo e Delírio em Brasília fizeram o episódio seguinte apenas sobre o NEM.
No segundo episódio que abordarei aqui, o início é com as falas do Professor Fernando Cássio (UFABC e REPU) rebatendo as falas de Fábio Campos. O professor traz os dados da situação real do Brasil, esses que já apresentei nos textos anteriores e nas referências. O Brasil tem 88% da rede de ensino sendo pública, desse modo, é a grande maioria que vai experimentar os grandes problemas gerados pelo NEM. A comparação com a rede privada apenas resume o que já foi falado por ministros e políticos brasileiros nos últimos anos: educação não é para todos. Essa reforma ilustra isso muito bem, pois a rede privada mantém a grade curricular com todas as disciplinas científicas exigidas nos vestibulares brasileiros e no ENEM (EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO), além de acrescentar ofertas de itinerários críticos, variados e interdisciplinares. Oferta essa que não ocorre na rede pública, onde muuitas vezes há apenas um ou dois itinerários (geralmente relacionados com o sub-emprego).
Para resumir as falas de Cássio, as promessas liberais para a educação não se realizam,pois não a possibilidade de escolhas pelos alunos, há o estreitamento do curriculo e negação ao acesso ao conhecimento. O que o Estado oferece é menos escola para quem mais precisa de escola. Mesmo que houvesse um ensino tradicional nos modelos do século XIX mas bem feita, o Brasil teria uma população bem mais educada. Portanto, o básico não está sendo feito, quanto mais diversificar todo um sistema precário. Liberdade não tem relação com escolha, mas sim com acesso ao conhecimento e formação plena. A maioria dos alunos brasileiros terão ainda mais defasagem para disputar vagas em universidades. Garantindo que essas vagas continuem a ser preenchidas pelos mais ricos. Aliás, aproveito o ensejo para me colocar contra o vestibular, pois em um país desigual, aumenta ainda mais os privilégios das camadas mais altas da população.
Gostaria de comentar uma reportagem da Folha de São Paulo, do dia 16 de abril de 2023, de Isabela Palhares, cujo título é Alunos ficam sem aula de biologia, história e química no 3º ano do novo ensino médio em SP. https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/alunos-ficam-sem-aula-de-biologia-historia-e-quimica-no-3o-ano-do-novo-ensino-medio-em-sp.shtml No texto, é dito que São paulo foi o primeiro Estado a implementar as mudanças curriculares. Essa antecipação foi feita pelo então governador João Dória já em 2021 (um ano antes do restante do país), terminando assim a implantação em 2023. Para justificar o título da reportagem, Isabela Palhares traz o número de aulas de cada disciplina na grade anterior e na nova.
Na grade curricular antiga, Português e Matemática tinham 5 aulas em cada ano do EM. Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia, inglês, Educação Física e Filosofia tinham 2 aulas em cada ano. Na nova grade, Português e Matemática, têm 5 aulas no 1º, 3 no 2º e 2 no 3º. Já Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia e Filosofia têm 2 aulas no 1º ano e 2 aulas no 2º, sumindo da grade no 3º ano. Dessa forma, os alunos do 3º ano do EM, da rede pública de SP, estão sem aulas de todas essas discipinas (Química, Física, Biologia, História, Geografia, Sociologia e Filosofia). Considerando que esses alunos têm o direito de prestar vestibulares e o ENEM em 2023, como estarão preparados se mais da metade da grade de conteúdos comuns não estão sendo ofertados? Novamente, quem mais precisa é quem menos recebe. Diversos meios de comunicação têm denunciado a diminuição das disciplinas básicas e itinerários descolados do que é cobrado em vestibulares. Além de que muitas escolas nem têm a oportunidade da escolha de itinerários.
Palhares (2023) também traz a fala de um professro que, em alguns momentos, ignora o conteúdo dos itinerários para ensinar geografia (sua disciplina), pois considera injusto os alunos não aprenderem o que deveriam. Ainda na reportagem, a fala de Anna Helena Altenfelder, presidente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação), resume bem a questão da desigualdade: "as escolas particulares continuam ofertando todas as disciplinas regulares em todos os anos. Elas não abandonaram essas matérias porque sabem que precisam preparar seus alunos para os vestibulares".
No fim de seu texto, traz falas do ex-secretário de educação do Estado de São Paulo (hoje atual secretário de educação do Estado do Pará), Rossiele Soares, que defende o NEM. Depois de tudo que já foi publicado e com dados, a fala do secretário me parece um tanto política e totalmente fora da realidade: "a rede estadual definiu por não ofertar os itinerários na primeira série do ensino médio e concentrar mais na terceira série pelo fato de o estudante estar com mais maturidade e autonomia, dando a ele mais oportunidade de se aprofundar nas áreas de seu interesse nesse estágio de conclusão". E completa: "na verdade, o estudante tem a mesma carga horária de aulas, com mais aulas dos itinerários, que aprofundam o conhecimento da área de conhecimento da escolha dele."
Sim, essa é a visão da classe dominante que implantou essa engenharia criminosa de segregação e que não usam o sistema de educação público para seus filhos, netos, sobrinhos e parentes em geral. Uma visão distorcida da realidade, pois os dados e as pesquisas demonstram justamente o contrário: defasagem, diminuição da carga horária das disciplinas básicas, desmotivação dos alunos e professores, falta de estrutura das escolas, ganhos para a iniciativa privada (por conta dos convênios com as Secretarias de Educação e a formação da futura mão-de-obra barata), aumento da desigualdade social e ampliação dos privilégios para os mais ricos. A consulta pública que iniciará em maio /2023 pelo governo Lula é premente. A questão é ter que trocar o motor do carro com ele em movimento...
Obrigado pela visita e pelos comentários.
"INCRÍVEL COMO QUEM VIVE BEM É INCAPAZ DE VER OS QUE NÃO POSSUEM OS MESMOS PRIVILÉGIOS. QUE LOUCURA ESSE MAR DE INSENSIBILIDADE!"