Olá! Como estão?
Hoje, um texto acerca do filme Marighella (censurado pelo governo brasileiro e apenas liberado recentemente para ser exibido nos cinemas).
O filme tem problemas; a história, não. Começo por aí a discussão, pois se trata de um filme histórico. Marighella foi nomeado o inimigo número 1 da ditadura militar brasileira (1964-1985). Isso, o filme diz; mas não mostra de fato quem foi essa persona embemática.,
O título desta crônica já nos levanta uma questão conhecida para quem sabe da história de Marighella. A questão Catóptrica foi o tema sobe o qual Marighella teve de fazer uma prova em sua época escolar, avaliação cuja resposta foi elaborada em versos. Marighella sempre gostou de versos, e essa avaliação ficou exposta em seu colégio até o início do golpe militar. Ah, Catóptrica é a parte da física que trata da reflexão da luz.
Esse filme é a estreia de Wagner Moura como diretor. Gosto de seus trabalhos como ator e, confesso, que também gostei de seu trabalho como diretor. Entretanto, percebi alguns "buracos" na trama e também senti falta de elementos históricos. O filme apresenta boas cenas de ação, boa fotografia e uma sequencia narrativa agradável. A questão central para mim é que se trata de um personagem histórico; logo, a licença poética, recortes e desenvolvimento de alguns personagens deixaram a desejar.
O personagem Marighella é apresentado de forma muito superficial. Ele foi mais do que um guerrilheiro (o que não é pouca coisa). Foi deputado, escritor, poeta, alguém que era ouvido e tinha o que falar. Pouco se falou sobre a vida de Marighella fora da guerrilha. Nessa época, houve perseguição não só ao Jango, Brizola e Jânio; mas também a intelectuais como Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, Celso Furtado e Darcy Ribeiro. A primeira prisão de Carlos Marighella ocorreu nessas circunstâncias, além de ser membro do Partido Comunista do Brasil.
Seguindo nessa perspectiva, a imagem da ditadura no filme foi abrandada, a meu ver, pois todas as manifestações apresentadas giram em torno do protagonista do longa. E a ditadura foi muito mais intensa e cruel do que o filme (pouco) mostrou. Os recortes não deram conta de aprofundar o desenvolvimento dos personagens. Os companheiros de Marighella existiram na vida real e fizeram parte da revolução. Não é a história de um homem só.
Ausência de nomes reais em um filme histórico torna-se um problema. O Delegado Fleury (Sérgio Paranhos Fleury), por exemplo, antagonista do filme, não é apresentado por seu nome real, e sim, como Lucio. Outro nome importante é Joaquim Câmara Ferreira, um companheiro próximo de luta de Marighella e revolucionário morto pela Ditadura Militar.
Uma cena da qual gostei muito, mas estava deslocada na história, foi o diálogo entre o frei e o Marighella acerca da cor de Jesus Cristo. A questão do Cristo ser branco serve aos interesses de colonização não só dos corpos, mas também das mentes das colônias. Quanto mais o colonizador branco europeu se parecer com o deus encarnado do cristianismo melhor. Uma crítica importante, mas que nada acrescentou ao enredo do longa.
Pontos muito bem desenvolvidos: a criação da Ação libertadora nacional; a perseguição a todos os membros da ALN; a morte de Marighella (de forma covarde); e o depoimento do delegado sobre a morte do protagonista.
Elogio o roteiro de Felipe Braga, Mário Magalhães e Wagner Moura pela sequência da história, de diálogos que justificam as cenas. Reitero o problema dos recortes, mesmo que a montagem tenha sido benfeita.
Enfim, uma experiência interessante ver o filme de estreia (como diretor) do Wagner Moura, atiçar um pouco a curiosidade sobre essa personagem histórica que foi Marighella e também, claro, relembrar quão terrível foram os anos de chumbo aqui no Brasil. Não Passarão. Não voltará! #DitaduraNuncaMais
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