quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Paixão Platônica

            Por um breve momento entre trocas, sinto-me em absoluto tédio, até que de longe, ouço o caminhar de certa pessoa. Essa vai se aproximando cada vez mais.

 Distante do quadro e sem enxergá-lo, pergunto-me quem virá em seguida, após certo tempo, a porta se abre, a visão se clareia e uma voz estonteante anuncia:

- Bom dia a todos, vamos começar a aula!

 Esta, diferentemente das outras, é iniciada de maneira inusitada, livros e cadernos guardados, alguns nomes na lousa. Ele começa a discursar. Aos poucos, começo a perceber que não se trata de uma aula como as que tive anteriormente, o conteúdo é completamente diferente de quaisquer outras matérias já previstas. Não se ligava a nada do que vira. Talvez, por todo esse mistério em desbravar novas terras ou pelo discurso verdadeiramente apaixonado pelo que diz, uma sensação inusitada surge.

Essa incomum sensação, que já havia sido experimentada uma vez, volta em minha alma com o propósito de indagar tudo que me é dito naqueles breves minutos.

 Eu jamais poderia deixar essa sensação morrer, pela segunda vez me sentia em tamanha alegria a ponto de caçar perguntas, mesmo que não houvesse, apenas para alongar o meu tempo. O esforço era irrelevante. Aos poucos, o professor vai encerrando sua fala. Ele se retira.

 Mas o que faria agora? Com aquela sensação presa em meu tempo que não cessava, o que faria? Logo, a resposta se tornou clara, apenas retome esse momento consigo mesmo! Portanto, não me desanimei, comecei a pensar no que foi dito. Tentar associar tudo e transferir aquele saber para o meu próprio ser.

 Quantas conclusões! Quantas dúvidas! Quantas questões sendo levantadas!

 Guardei tudo que pensara para retomar as mesmas pautas em uma próxima oportunidade.

 Novamente em tédio, mas dessa vez tenho plena consciência de quem virá a seguir. O som de seus passos vai se aproximando. A porta se abre, uma sensação retorna e uma voz estonteante anuncia:

- Bom dia a todos, vamos começar a aula!

 Mas dessa vez, algo não parece certo. Ele começa a escrever na lousa, mas não havia nada relacionado à aula passada. Algo novo?

 Os meus olhos passavam pelas palavras e eu me frustrava cada vez mais, fez parecer que nada do que havia preparado teria utilidade nesses longos minutos. A matéria tinha de ser dada, o ano deveria continuar.

 Mas a filosofia, essa poderia ser deixada para depois.

 Assim como um certo alguém um dia definira, esta era uma paixão que em poucas oportunidades poderia ser admirada, mas nunca consumada. Pois essa breve introdução nunca se transformaria em matéria, assim como tem sido por longos anos sem pensar.

 

Vinicius Buran de Moraes

Obrigado pela visita e pelos comentários.

"TODOS TEMOS O DIREITO DE PENSAR E DE PODER, DE FATO, TER ESCOLHAS. SEM FILOSOFIA, APENAS REPETIMOS O QUE NOS MANDAM. QUERO A LOUCURA DO CONHECIMENTO"

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

O Brasil perdeu, e foi no primeiro turno

 Olá! Como estão?

Uma reflexão sobre as eleições de 2022.


Há muita discussão sobre o segundo turno para presidente do Brasil, agora dia 30 de outubro.

Os discursos versam sobre a volta da democracia e o fim dos sigilos, de um lado; e o medo do fechamento das igrejas e acusações sobre a perda da liberdade, por outro lado.

Claro que ter mais 4 anos de Bolsonaro seria um cenário intragável, principalmente para os mais pobres; entretanto, há exageros e fake news dos dois lados.

Há a acusação acerca da perda da democracia no Brasil, o que não é necessariamente verdade. Quando o Brasil foi um país democrático de fato? Não é porque há eleições diretas que somos o lugar mais democrático do mundo. Tenho de dizer que o aparelhamento estatal está abusivo, muito mais do que em outros governos, nada transparente e demais autoritário agora. 

Dito isso, o que é verdade, devo dizer que democrático é um país em que o povo possa ter escolhas, ter direitos e condições materiais de exercer sua cidadania. Nesse quesito, mesmo nos anos petistas, em que tínhamos "apenas" 7,5 milhões de pessoas passando fome, isso não ocorreu.

Dizer "apenas 7,5 milhões de pessoas na fome" é uma ironia para o governo que tinha um programa chamado "Fome Zero" e que não acabou com o "negócio" do Agro, cuja função é enriquecer fazendeiros.

Entretanto, não há comparação com os mais de 33 milhões que passam fome no governo do atual presidente, que insiste em dizer que governa para os mais pobres. 

A promessa do fim do sigilo instaurado neste governo é um argumento que aguça a curiosidade do povo, mas que sugere medo da prisão para os que não se elegerem nesta eleição, ficando na mira da Polícia Federal, já que estariam sem o foro privilegiado. Embora saibamos de muito tempo que gente com dinheiro raramente fica preso no nosso país.

A ameaça de que templos religiosos seriam fechados (entenda igrejas evangélicas) soa como um contra-ataque irracional das massas. Mesmo que nosso Estado não seja laico (deveria ser), as religiões que não sofrem ataques são as cristãs, pois o Estado é cristão (nas palavras do presidente). 

Ninguém se revolta com os templos de matriz africana e umbandistas (religião brasileira) sendo atacados constantemente. Agora, com a falácia da cristofobia, o exército delirante do ex-capitão foi à loucura. 

É claro que não serão fechadas as igrejas cristãs nem de qualquer outra religião. Lula está de acordo com a Constituição e faz jus ao conceito de Estado laico. 

Esse fanatismo cego inflamado por discursos de ódio levou cristãos católicos a atacarem padres em seu pleno exercício de representante de Deus. Não são raros, na internet, registros desses ataques físicos e verbais aos sacerdotes que estavam fazendo seu papel: pregando contra fome, armas, violência e preconceito.

Essas pessoas invadiram missas e questionaram os padres, sugerindo que eles estivessem pedindo voto para Lula, insinunado que eles seriam favoráveis ao aborto, entre outras ofensas. Ações indigestas em se tratando de uma cerimônia religiosa conduzida por alguém que se preparou anos para aquele evento. 

Para quem já fazia isso com os professores, enfrentar padres em suas cerimônias até que não me surpreende. Os professores sofrem perseguição de uma parcela da população que os classifica como comunistas doutrinadores. Coerência passou longe...

Enfim, esse preâmbulo serviu só para dizer que Lula vencer é infinitamente melhor do que Bolsonaro permanecer no poder. Essa onda de ódio irá diminuir, já que o chefe do executivo não irá mais inflamar o povo com ataques delirantes e sem fundamento.

Apesar de tudo isso, devo dizer que o Brasil já perdeu essa eleição. E foi no primeiro turno.

Afirmo isso, pois o congresso é o responsável  pela aprovação de todas as manobras políticas e legislativas. O chefe do executivo tem alguns poderes limitados para vetar leis e também para propor medidas provisórias (que podem ser derrubadas pelo legislativo). 

Em 2022, os deputados federais alinhados com a "direita" somam 342 parlamentares contra 127 dos partidos mais à "esquerda". A base de conservadores, cristãos, liberais e extremistas totalizam mais de 3/5 do congresso (o suficiente para aprovar ou reprovar qualquer projeto).

Como governar, no caso de Lula, com o congresso "todo" contra você? A posição do presidente petista será figurativa em relação a novos projetos e pautas "originais" (de esquerda). As alianças feitas para o segundo turno cobrarão lá na frente políticas mais liberais e de direita. Não existe almoço grátis. 

O Brasil já perdeu no primeiro turno a chance de se redimir da bobagem que fez em 2018, dando palanque para bancadas extremistas e alucinadas por espantalhos e fake news.

Pior, destaco alguns senadores eleitos neste ano de 2022: Marcos Pontes (PL). Pontes foi ministro da Ciência e Tecnologia, de Bolsonaro; permitindo cortes de verbas, demitindo pessoas importantes e nunca defendendo a ciência como deveria. Ficou isento para não se estranhar com Bolsonaro. Parabéns a São Paulo por elegê-lo.  

 Paraná conseguiu ir ainda mais longe ao eleger Sergio Moro, o juiz que combinou com o promotor os passos na condenação de Lula. Aquele que fez e desfez acordos desde a sua demissão do ministério da Justiça, na tentativa desesperada de ser eleito para algum cargo. Não é raro ouvir de pessoas que conversaram com ele, sobre a sua limitada inteligência.

O Rio Grande do Sul elegeu Mourão, o vice-presidente do Brasil que, assim, como Bolsonaro, viveu numa alucinação coletiva contra espantalhos. Defendendo o indefensável e não ajudando seu povo que morre de fome, de Covid, de violência...

Brasília elegeu Damares para senadora. Essa senhora mentiu sobre sua formação, quis proibir uma criança estuprada de fazer o aborto e faz alarde mentiroso sobre o fechamento de igrejas. Não consigo acreditar que ela foi eleita...

Bem, é um governo que faz de tudo para ser derrubado e um povo que continua segurando-o firme para não cair. Enfim, o Brasil tem o governo e o povo que merece: insano e preconceituoso.

Melhor Lula do que Bolsonaro, mas a extrema-direita ficará por muito tempo pululando nas terras tupiniquins com ajuda dos que mais sofrem com isso. 

O Brasil foi derrotado. Quem sabe com a vitória de Lula, daqui quatro anos, a composição da câmara mude? Só assim para voltar a ter esperança...

Obrigado pela visita e pelos comentário.

"AS MENTIRAS VÃO SE TORNANDO VERDADES ENQUANTO A LOUCURA DA REFLEXÃO NÃO ASCENDE AOS CÉUS"

domingo, 2 de outubro de 2022

UNHA REFLEXIÓN POLO GALEGO

 Ola! Como estás?
Hoxe trago un texto sobre un acontecemento en Galicia.
O perfil de Twitter A Mesa Normalización Lingüística (@amesanl) publicou un vídeo, o 31 de maio de 2022, co seguinte comentario:

"VERGOÑA
O presidente da Xunta, responsable da promoción da nosa lingua en todos os ámbitos, e especialmente na infancia, fala unha meniña en castelán."

Eu vira este vídeo, se a memoria non me falha, na página de facebook da Xunta de Galicia. Non obstante, já non puiden atopar o vídeo alí.
Pronto! O que trago á reflexión é a situación da lingua galega vista por un brasileiro e apaixonado pola cultura de Galiza e que pronto estará nas terras do antigo reino suevo.

A Galiza (e as demais rexións que tenhen linguas regionais) foi prohibida pola ditadura franquista o uso da súa lingua. Así, o galego estivo prohibido ata 1973.  
Esta prohibición, iniciada en 1936, freou o movemento de rexurdimento da lingua galega. Co efecto, a opresión do castelán, legitimada polo goberno franquista, reprimiu aínda máis o galego.

Hai estudos que amosan un descenso dos galegofalantes, já que a información dos que disponhen os galegos está en inglés ou castelán. Peor aínda que o maior uso nestas linguas é a invasión do castelán á lingua galega.
O ensino intergeracional diminuíu, já que o castelán, que era lingua de opresión, é hoxe unha lingua de prestigio.

Por suposto, considerar o castelán como lingua de prestigio é froito dunha manipulación ideológica. É lingua oficial non só no Estado español, senón en varios países e noutros continentes. É a segunda lingua do planeta tendo en conta o número de países e regións nas que se fala.
Todo isto aínda non justifica o desprestigio do galego. Unha lingua non debe medirse pola súa utilidade, já que unha lingua é a máxima manifestación cultural dun pobo. Ao perder a lingua tamén se perde a cultura desta gente.

A RAG (Real Academia Galega), junto cos intelectuais, instituíu a normalización da lingua, despois de que o galego fose elevado a lingua cooficial na comarca de Galicia, en 1983.
Aínda que esta norma non agrada a todos, funciona como norma que ajuda no proceso de oficialización da lingua galega.

Hai o movemento reitegracionista para cambiar a grafía que establece a RAG. Dende esta perspectiva, galego e portugués son a mesma lingua, que se expresan de diferentes jeitos, como o portugués do Brasil ou o de Mozambique, por exemplo. Sería un jeito de potenciar a lingua galega, já que se comunicaría con máis de 250 millóns de persoas, ademais de recuperar expresións típicas galegas, que se trocaban por formas castelanizadas.
Desta volta, o galego vive unha situación de inestabilidade en relación ás súas políticas lingüísticas, non só polas discusións sobre o reitegracionismo, o ilhacionismo ou o binormativismo; pero tamén polas políticas educativas que reduciron o ensino en galego ao 30%, polo uso dos medios de comunicación en castelán e pola manipulación ideológica do desprestigio da lingua galega.

Accións como a do presidente Alfonso Rueda ilustran esta preferencia polo castelán en terras galegas, reforçando a visión ideológica de que o galego sería unha lingua minorizada.
Aínda que o galego aínda non chegou a un acordo para a súa expresión reintegrada, segue a ser a identidade do pobo galego e non pode desaparecer nin ser invadido polo castelán para diluirse na lingua opresora.

Todo acto contra o galego hai que loitar contra! O galego é unha força cultural e unha nación! O galego é rico e loitamos polo galego!
Graças pola visita e polos comentarios.

"A LOUCURA É A ÚNICA FORMA QUE PODEMOS SAAR DESTE MAR DE OPRESIÓN".

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Por que me apaixonei pela Galiza?

 Olá! Como estão?

Por que me apaixonei pela Galiza?

Pode parecer um pouco precipitado esse título, até porque ainda é um amor à distância. Mas não nego que é amor. 
Foi um amor intenso, quase instantâneo. A cada descoberta que eu fazia, mais queria saber desse conforto localizado a noroeste da península ibérica.

Mas vamos por partes. Vou contar cada etapa desse namoro (que almejo que se torne casamento).

Eu andava procurando um tema para desenvolver na minha tese de doutorado. Comecei pela questão política no Brasil. Até desenvolvi algumas pesquisas nessa direção. 

Entretanto, não estava ainda satisfeito. Resolvi procurar outro objeto. Sempre fui encantado com as questões políticas na Europa e a história das línguas neolatinas.

Encontrei a questão da Galiza. Uma comunidade autônoma, na Espanha, com muita história para contar. Lembrei-me das aulas de literatura que estudei (e posteriormente lecionei) em que líamos as cantigas em galego-português. Afinal, que língua é essa?

Quanto mais descobria a força do povo galego para manter sua língua e sua identidade, mais apaixonado pela Galiza eu ficava. Movimentos para legalizar o galego após a ditadura franquista emocionaram-me. Embora não haja acordo entre todos os movimentos pró-galego, vejo que todos querem o mesmo: a Galiza para os galegos.

O galego é uma língua, atualmente, que fica entre o português e o castelhano. Na origem, era português, uma mesma língua. Com o passar do tempo, as mudanças políticas afastaram as duas. O português se concretizou como língua oficial enquanto o galego foi perdendo suas força política. 

Sobreviveu graças aos esforços de seus escritores, que fora de sua pátria escreviam na sua língua. E dentro das casas, as famílias sempre o utilizavam. Embora não houvesse padronização, sobreviveu e continua sobrevivendo.

Agora, meu objetivo, no doutorado, é discutir as questões da língua galega, tanto quanto à sua proximidade com o português (português da Galiza) quanto as questões políticas que entravam (dificultam) seu pleno exercício.

Logo espero estar fisicamente na Galiza. Ouvir diretamente de lá a língua que me tocou, cumprimentar o povo que me recebe com tanto carinho e atenção pelas redes sociais, visitar todos os pontos de seu território, sentir-me em consonância com as aspirações desse povo incrível. 

Quero contribuir com o que tiver ao meu alcance de investigador acadêmico para discutir, apresentar, defender, teorizar e representar a liberdade e a ascensão da Galiza.

Obrigado pela visita e pelos comentários.

"MUITOS ACHARIAM LOUCURA CRUZAR O OCEANO. MAS NÃO VOU A NADO, IREI DE AVIÃO"

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Só a educação não salvará o Brasil

Olá, tudo bem com vocês? 

Só a educação não salvará o Brasil
A educação não é saída para que o Brasil torne-se um país desenvolvido, com distribuição de renda adequada, com a diminuição da violência e menor segregação social. Esta é a minha tese: um país não vai se livrar das amarras que o sufoca utilizando-se dessas mesmas amarras. 

Para tornar essa tese numa explicação palatável, faz-se necessário explicar separadamente os pilares que a sustentam. Os pilares são: a) Brasil como país capitalista periférico; b) Ditadura burguesa brasileira; c) Educação como reprodução; e d) Reforma do Ensino Médio. 

Após explicitar os pilares, uma conclusão materialista irá detalhar porque a educação brasileira não é a condição para a melhoria das condições de vida de sua continental população.

a) Brasil como país capitalista periférico

Embora o Brasil seja um país continental, com alto PIB (figura entre os 10 maiores PIBs do mundo, em 2022), serve a interesses dos países mais ricos e industrializados. 

Os países desenvolvidos apresentam uma posição imperialista em relação aos que não são desenvolvidos. Dessa forma, a exploração da mão-de-obra do povo ocorre por intermédio das classes dominantes dos países menos desenvolvidos, por meio de acordos que assujeitam ainda mais esses Estados.

Os países imperialistas gozam de certa estrutura social, uns mais, outros menos; mas que não se comparam com as abissais desigualdades que ocorrem nos países subjugados.

Mas para cada país desenvolvido, há outros países "pobres" para sustentar essa riqueza. Não é um argumento de soma zero, mas é um sistema em que a exploração ocorre, dificultando a ascensão desses países como um todo, gerando riqueza apenas para a classe dominante, comprada sua apatia em relação ao seu próprio povo.

O Brasil é um caso de país periférico, com sua burguesia (Elite do Atraso - segundo Jessé Souza) vendida a esses acordos de manutenção de mão-de-obra barata e nula industrialização do país, latifúndio do mundo (o que enriquece o agronegócio) e cada vez mais entregando nossas riquezas a preços vergonhosos.

b) Ditadura Burguesa Brasileira

Seguindo a linha do item anterior, se o Brasil apresenta uma classe dominante fechada com seus próprios interesses, vive-se a ditadura da burguesia mascarada de democracia. Recuso-me a chamar de elite a classe dominante do Brasil e concordo com Emicida (rapper brasileiro) quando diz que a elite de algo remete ao melhor que aquele conjunto pode oferecer, e a nossa "elite" só tem dinheiro. 

Na Folha, em 13 de fevereiro de 2014, Eduardo Giannetti diz que "Nossa "nova classe média" ascendeu ao consumo, mas não ascendeu à cidadania". Dessa forma, a classe burguesa do Brasil (1% da população) só se importa com seus negócios mesmo que precise "esfolar" seu próprio povo. Os outros 9% (a classe média brasileira) embora sejam trabalhadores "plus", com melhores salários e condições de vida, compram a ideia dessa burguesia, achando-se similares a eles. E com isso, também dificultam a vida dos 90% restantes da massa do Brasil.

Os acordos são para manter a classe dominante como classe dominante. As decisões passam por aqueles que fazem a gestão do país e os altos cargos das empresas. 10% da população é mais do qe suficiente para manter o Brasil estacionado, gerando riqueza aos mais ricos e oprimindo o acesso dos mais pobres.

c) Educação como reprodução

Bourdieu e Passeron publicaram a obra A Reprodução no ano de 1970 e analisa o sistema educacional francês. Essa obra chegou ao Brasil em 1975 e foi base para a obra Escola e Democracia, do professor Demerval Saviani, em 1983. 

Essas obras analisam o sistema escolar de seus respectivos países. Saviani, apoiado em Bourdieu, descreve a reprodução dos valores burgueses na educação  brasileira. Dessa forma, a educação é um instrumento político de reprodução e de sustentação dos interesses da classe dominante.  

O sistema educacional do Brasil impõe aos estudantes os valores, a cultura, o modo de pensar e a ideologia burguesa. Dessa forma, a educação, mesmo que não fosse sucateada, continuaria a reforçar os valores de uma classe neoliberal, com Estado mínimo, a favor de privatizações e contra assistencialismos. O mais paradoxal é que, num país em que apenas 10% da população recebe um salário acima de R$ 3.500,00, haja uma grande maioria do povo defendendo esses valores dos mais ricos. Isso ocorre por conta dessa imputação ideológica.

A reprodução incentiva a competição e lança a culpa do fracasso sobre o próprio indivíduo. Em 2022, o Brasil conta com 33 milhões de pessoas passando fome. Em 2016 eram 7,5 milhões, no governo do PT. Logo, a educação é a maneira pela qual, é lançada a desunião entre o povo, reforçando suas amarras. 

d) Reforma do Ensino Médio

A reforma do Ensino Médio torna-se palpável os argumentos sobre a escola ideológica. A reforma foi feita a partir da lei 13.415/2017, sob a presidência de Michel Temer (após o golpe sobre a então presidente Dilma Rousseff). 

Michel Temer governou dois anos representando os interesses da burguesia. Fazendo a reforma trabalhista, mudando a política de preços da Petrobrás e encaminhando a reforma da previdência. O Brasil pulou de 7,5 milhões de pessoas passando fome para 10 milhões, em dois anos.

A reforma do Ensino Médio ocorreu sem diálogo com a sociedade. Professores e alunos foram excluídos do projeto, que ocorreu de forma impositiva, em forma de lei.

Para resumir, a reforma prevê diminuição da carga horária dos conteúdos básicos para 1.800 horas em todo o Ensino Médio (de acordo com a BNCC - Base Nacional Curricular Comum) para acrescentar 1.400 horas de itinerários formativos. Essas 1.400 horas, na rede pública (que atende mais de 75% dos alunos brasileiros) seriam ministrados em regime de escola integral. Em escolas precarizadas, sem professores e sem o mínimo para virarem do dia para a noite uma escola integral. O Novo Ensino Médio começou este ano (2022) e já apresentam as dificuldades e as falácias de poder escolher sua área de atuação. Muitas escolas não conseguem oferecer um intinerário de forma adequada, quanto mais oferecer opções.

Outro ponto sobre a escola pública é que muitos desses itinerários estão vinculados à formação de obra-de-obra barata por meio de parcerias privadas para ministrarem cursos profissionalizantes. 

As escolas privadas e as escolas que recebem a classe burguesa irão adequar sua estrutura e horários para incluir além da currículo comum, disciplinas como educação financeira, empreendedorismo, debates, ciências forenses, astronomia etc. Reforçando novamente o ambiente de competição e mantendo suas posições privilegiadas.

Essa reforma afasta ainda mais o jovem da periferia de disputar o vestibular com condições de serem aprovados, pois terão menos conteúdos do que a grade anterior da reforma.

Conclusão materialista


Os quatro pilares estruturam a visão acerca da realidade brasileira, pois se trata de um país de periferia governado por uma classe que visa aos seus próprios interesses, minando o desenvolvimento do Estado do Brasil. 

A educação sempre foi eleita como a solução para um país menos desigual e com equidade social, além de se desenvolver e de se industrializar. Neste artigo mostro que isso não será possível, pois:

1) a educação reproduz os valores burgueses, isto é, a manutenção do poder está assegurado pela ideologia dominante em que fortalece a desunião entre a classe trabalhadora (90% da população); e

2) Na mentalidade capitalista, o objetivo é o acúmulo de capital a partir da exploração do outro. Todos os dias, valores são gerados nos sistemas de produção, mas que ficam com a menor parte da população (1%), pois esse é o modelo vigente. Mesmo que todos da classe trabalhadora se esforçassem (no mito da meritocracia), não alcançariam postos elevados, pois a visão escravagista da burguesia brasileira (Jessé Souza) não gera novos postos nem industrializa o país. Viraríamos o país dos proletariados intelectuais.

Desse modo, a grande questão a ser combatida não é a exigência de uma educação burguesa melhor, mas uma educação libertadora (o que é uma utopia) para transformarmos o sistema vigente, a ideologia dominante. Sem romper com essa lógica subserviente, o Brasil sempre será o país desigual e explorado pelos imperialistas.

Referências

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução. 3.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
CNN Brasil. 
Economia Uol
Eduardo Giannetti. Igualdade de quê? Folha. 13 de fev. de 2014. 
Jessé Souza. A elite do atraso. Editora Leya.
Lei 3.415 

Obrigado pela visita e pelos comentários.

"É DE UMA LOUCURA TOTAL ESSA VISÃO DE FAVORECER APENAS UMA PARCELA ENQUANTO A OUTRA PASSA FOME. É LUXO E LIXO. MAIS LIXO. MUITO LIXO NO PALÁCIO."

quarta-feira, 9 de março de 2022

Feliz dia das mulheres

 Uma flor, uma árvore, uma mulher.


A flor é perseguida por sua beleza e seu perfume. Utilizada na fabricação dos mais exóticos perfumes. Não nos esqueçamos dos espinhos que a protegem. 

A árvore é a fonte da vida. Alimento, oxigênio, abrigo e proteção. De seu tronco, utensílios são fabricados. É sombra, é paz.

A mulher reúne os atributos mais caros aos poetas. Encanta com sua naturalidade. É fonte de inspiração, de vida, abrigo e proteção. Seu amor é a melhor sensação que se pode sentir. Seu cheiro e seu gosto, inconfundíveis. O olhar penetrante, que paralisa...

É perfumada, é bela e única como a flor. É base, fruto da vida e é abrigo, como a árvore.

Ao mesmo tempo, protege-se com seus espinhos, é forte com seu tronco rígido.

É inteligente e sábia como os deuses.

Hoje é seu dia! Dia internacional da mulher.

E aqui, uma singela homenagem deste homem que aprecia todos seus encantos e sua poesia de ser apaixonante.

Parabéns! 


08 de março de 2022


Obrigado pela visita e pelos comentários.

"A MAIOR LOUCURA É A PAIXÃO DESENFREADA E O DESEJO INCONTROLÁVEL"

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

LULA TEM O CENÁRIO PERFEITO: INSATISFAÇÃO E DIREITA RACHADA

 Olá! Tudo bem?


De acordo com a pesquisa da Quaest/Genial (09/02/2022), Lula lidera as intenções de voto para presidente, em 2022, com 45%. Atrás, vem Bolsonaro (23%), seguido por Moro e Ciro (7% cada). Considerando as margens de erro e reviravoltas que poderão acontecer até o dia dos eleitores se dirigirem às urnas, o ex-presidente pode ganhar ainda no primeiro turno.

O cenário favorece ao petista, pois Bolsonaro cuja rejeição já supera os 50% vem perdendo força (enquanto a rejeição a Lula gira em torno de 35%). A própria elite do país, que apoiava o presidente em exercício, já elegeu outro candidato para apoiar: Sérgio Moro.

Desde toda a articulação para a retirada da presidente Dilma Rousseff, o Brasil não cresce. A direita reassumiu o poder com Michel Temer, no que se chamou de "Impeachment", pois o próprio ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, afirmou que o "motivo real" do afastamento da petista não foi por pedaladas fiscais, mas, sim, por falta de apoio político. Dessa forma, a retomada brusca e, por que não, questionável serviu para que reformas (como a trabalhista) fossem feitas a fim de contemplar o lado mais forte da hierarquia social.

A promessa de mais empregos não foi concretizada nem por Temer, nem por Bolsonaro. Em seu governo, Bolsonaro "financiou" a aprovação da reforma da previdência, em que não se descarta mais os valores 20% mais baixos durante todo o período de contribuição. 2021 fechou com mais de 14 milhões de desempregados. E os índices apontam para 11% durante o ano de 2022.

A política de acordos (toma lá dá cá) fez parte de sua gestão, nomeando indicados de partidos em troca de apoio no Congresso. Não seria estranho se o próprio presidente não tivesse sido eleito justamente por criticar a velha política.

A pior crise sanitária do século surgiu em seu governo, agravando ainda mais a situação econômica e social do país. Demitiu o ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta pelo simples motivo de fazer o seu trabalho. Bolsonaro chamou a pandemia de "gripezinha" e atrasou como pôde o avanço da ciência e da vacinação. Só amenizou quando o STF interferiu e delegou os poderes aos governadores. Gilmar Mendes já dissera que "Bolsonaro não tem poder para fazer política genocida".

O desemprego em alta, os preços subindo, a inflação alcançando os dois dígitos, insatisfação de grande parte da população; um novo caminho precisaria se abrir. Moro surge como candidato da "terceira via". O juiz que foi o protagonista da operação Lava Jato ganhou muitos seguidores pelo feito de prender Lula (inclusive o presidente Bolsonaro, que era seu fã até a saída do juiz do Ministério da Justiça). Entretanto, vem derrapando na missão de ganhar novos eleitores, oscilando entre 7% e 8% das intenções de voto. 

O TCU está investigando Moro por conta das homologações feitas por ele nos acordos entre empreiteiras e a Justiça; e também na atuação do ex-juiz na consultoria Alvarez & Marsal. Como se não bastasse a investigação chamada de "Vaza Jato", Sérgio Moro apresenta pouco conhecimento sobre os assuntos dos quais decide falar, em entrevistas. Um fato recente foi a comparação entre o crescimento da Inglaterra e da Somália, justificando que "instituições" são responsáveis pelo crescimento britânico. Em outra fala genérica, afirmou que resolveria o problema da economia no Brasil por meio de uma "força-tarefa".

Não ter conhecimento de história para entender que um país que sofreu uma colonização brutal e ficou independente apenas em 1960 não teria ainda condições em 2022 para ser comparado à sua ex-metrópole é uma falta grave a um candidato a presidência da república. Não apenas pelo desconhecimento do fato em si, mas a visão de mundo restrita. A que instituições ele se refere? Responder de maneira genérica que os problemas do Brasil seriam resolvidos com força-tarefa é chamar o eleitor de inocente. Preocupante.

Com a popularidade de Bolsonaro caindo e a Lava Jato de Moro sendo questionada por abuso de poder, Lula volta como esperança. Não apenas para a esquerda, pois seu percentual de intenções de voto supera os 25% da base petista (em média). A memória do Brasil nos anos em que governou bateu à porta. Só para refrescar, durante os anos de governo, projetos como FIES; Pronatec; Prouni; Ciência sem Fronteiras; Mais Médicos; Farmácia Popular; Minha Casa, Minha Vida; Bolsa Família; Cisternas no sertão; e Transposição do Rio São Francisco (entre outros) foram implementados, aperfeiçoados e entregues à população. O desemprego caiu para índice histórico. Não éramos um país de primeiro mundo, mas as mudanças estavam surtindo efeito e diminuindo as distâncias sociais. Mesmo em um governo neoliberal em que os ricos ficaram ainda mais ricos, os pobres também tiveram acesso a esse crescimento. Éramos a 6ª economia do mundo em 2011.  

Outro dado importante é questão da fome. Antes do governo do Lula, 15 milhões de pessoas passavam fome no Brasil. Durante os governos do Lula e Dilma (14 anos de governo), 7,5 milhões de pessoas passavam fome (redução de 50%). No governo Temer (2 anos), 10 milhões de pessoas na fome. No governo Bolsonaro (3 anos), são estipulados 20 milhões de pessoas passando fome no Brasil (aumento de 100%).

Bolsonaro já não tem a força de antes, segue com seus fiéis seguidores e agressões para todo lado. Moro, sem carisma, também fez seu fã clube de antipetistas. E Lula, impedido de disputar as eleições em 2018 de modo irregular, volta liderando as pesquisas por conta da memória do que já fez e/ou da nova esperança de um país que pede por mais políticas públicas e o combate à fome.

Escolha difícil... não?


Obrigado pela visita e pelos comentários.


"OS OLHOS DA LOUCURA ESTÃO SE ABRINDO... AINDA BEM."

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Sobre a A República, de Platão

     Olá! Como estão?

    Uma sugestão de livro, no post de hoje.


    A República, de Platão: um livro que todos deveriam ler, independentemente de sua posição social

    Tantos livros e tantas pesquisas sendo divulgadas a todo instante nas redes. O conhecimento mundial dobra, hoje, a cada 2 ou 3 anos, de uma forma geral. Muitos estudos atuais superam os estudos mais antigos, pois se tratam de ciências da natureza cujas descobertas só foram possíveis por meio dos avanços tecnológicos.

    Entretanto, há estudos que ainda perduram (já que ainda não conseguimos superá-los ou nunca os superaremos). Coloco nessa prateleira, o livro citado no título: A República, de Platão.

    Ainda vou mais longe. Defendo que é um livro cujo conhecimento deveria chegar a toda espécie humana. Sim, coloco-o como um livro que todos deveriam ler. Explicar-me-ei.

    Obviamente, há questões anacrônicas, afinal, o livro foi escrito há séculos antes de Cristo. De qualquer forma, é uma obra que ainda nos ensina muito. A reflexão proposta pelo filósofo toca em muitos pontos ainda prementes na sociedade moderna.

    Primeiro ponto que eu abordo vai ao encontro sobre as discussões acerca das desigualdades sociais. O Brasil é um país cuja desigualdade é marcante, e para tal problema ainda não vimos soluções que resolvessem, na essência, essa mazela. 

    Platão cria um modelo de sociedade perfeita e vai estruturando os pilares para tal. O autor aborda a individualidade dos jovens dessa república recém-criada. Todas as crianças teriam acesso à mesma educação primária (sem distinção). Conforme fossem crescendo e suas aptidões fossem surgindo, cada jovem seria direcionado para a área a fim de aprimorar suas aptidões. Um jovem que tivesse aptidão para a guarda, seria enviado ao treinamento militar; outro que tivesse aptidão para os estudos, seria encaminhado para a filosofia.

    Dessa maneira, todos os jovens seriam alocados onde teriam mais desenvoltura e utilidade para a república. E todos teriam oportunidades e fariam parte efetiva do sistema. Sem privilégios ou profissionais de baixo conhecimento técnico.

    Além de que a exclusão de gênero não ocorreria. Platão afirma na sua obra que não há diferenças entre homens e mulheres (apenas a física). Isso 5 séculos antes de Cristo! Em 2022, ainda temos que combater esse preconceito.

    Mais um ponto antes de terminar esta reflexão. A democracia é atacada pelo filósofo, pois este argumenta que as pessoas são desiguais e acabam tendo direitos iguais de participação. Outro ponto para reforçar o problema da democracia é a eleição de algum pouco capacitado para comandar o Estado, sendo eleita também por pessoas com pouco preparo. Não estou indo contra a democracia, apenas trazendo o ponto de Platão sobre ela.

    O discípulo de Sócrates exemplifica com uma questão. Se há um barco desgovernado, em meio a uma tempestade. Quem seria o mais indicado para comandá-lo? O melhor preparado ou um avenureiro? Eis a relação que ele faz com a democracia. Muitas vezes, o eleito (para tantos cargos que temos no Brasil - de legislativo a executivo) nao apresenta preparo algum para tal.

    A solução adotada por Platão, nA República, é que o governante deva ser filósofo, isto é, com muito conhecimento e sabedoria para governar. E que seja oriundo da escola geral que selecionou os mais capacitados para o cargo.

    Bem, não estamos nA República, de Platão. A democracia é o nosso sistema vigente (ainda bem!). Reflexões sobre o livro para nosso presente.

    Só teremos um Estado com equidade quando todas as crianças tiverem acesso à educação, saúde, moradia e alimentação. E que a igualdade de oportunidades exista para homens e mulheres. E, por fim, e não menos importante, que estudemos os candidatos políticos e saibamos escolher o mais preparado (de fato) para exercerem seus cargos elegíveis. Um Brasil melhor é sonho de todos. Em busca dessa realização.


    Obrigado pela visita e pelos comentários. 


    "O MITO DA CAVERNA AINDA É UMA VERDADE NESTE MUNDO EM QUE A LOUCURA NÃO É SENSATA!"