quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Por que precisamos dos (bons) professores?


A sociedade brasileira caminha para a alta especialização por meio da grande demanda de cursos superiores, tecnólogos e técnicos oferecidos há mais de uma década e acesso possibilitado por subsídio federal; porém, com obtenção de diplomas, muitas vezes, ilustrativos, já que seus possuidores são intelectuais fantasmas.

Os fantasmas estão habitando o delírio de um mercado idealizado, tornando-se invisíveis às grandes corporações, aos disputados concursos, aos melhores salários e às posições de destaque social.

Apesar desse preâmbulo poético-niilista, essa reflexão não é de todo mal, pois se faz necessário que a reflexão brasileira seja despertada para o estado em que se encontra a educação, principlamente a educação básica, onde há o desenvolvimento do cidadão.

O INAF (2018) apresenta a porcentagem da população formada de leitores proficientes. Seu estudo é feito por amostragem, caso queira saber mais, basta acessar o link do Instituto Paulo Montenegro. Pelo índice de 2018, temos 12% da população brasileira de alfabetizados plenos (número melhor do que o INAF de 2016).

Outros dados do INAF

64% da população poderia ser considerada analfabeto funcional (incluindo analfabetos, rudimentares e os elementares - que possuem nível de leitura muito baixo). - INAF - 2018.

34% das pessoas que possuem diploma superior são leitores proficientes (INAF - 2016)

12% das pessoas com Ensino Médio são leitores proficientes. (INAF - 2016)

Profissionais da educação - apenas 16% desses profissionais são leitores proficientes. (INAF - 2016) 

Com esses índices, algumas constatações ficam mais claras. Há um grande número de brasileiros que, mesmo com formação específica, não atuam em sua área de especialização. Outros amargam desemprego por longos períodos. 

O grau de proficiência em leitura justifica casos assim. Não ter proficiência acarreta outros sintomas inerentes ao pouco domínio de sua área ou à transmissão de seus conhecimentos (básicos). As funções de ensino superior exigem atividades intelectuais como leitura ampla, escrever em gêneros textuais diversos, comunicação fluente oral e escrita, rapidez nas tomadas de decisão, liderança e, não raro, chefia. 

Os (bons) professores têm a dimensão da realidade social, entendem que continuar a reproduzir conteúdos em sala de aula sem questionar seu corpo discente só estarão contribuindo com a permanência desses índices como a não formação de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres civis e políticos. 

Mas questionamentos geram polêmicas. Principalmente em épocas do engessamento da educação por questões imediatistas e competitivas de uma sociedade alienada - de sua elite à sua classe mais simples e humilde. A polêmica ajuda a polarizar o conhecimento a ser ampliado e discutido. Os (bons) professores desafiam a ordem e questionam o dogma. Chega da doxa, mais episteme.

Reproduzir não nos leva à criação (e à salvação).  

Portanto, dizer "não" quando se deve dizer "não" é o ato mais digno que um (bom) professor deve ter. Não é expor seu aluno, pelo contrário; atos assim demonstram a preocupação do docente com seu aprendiz. Kant já dizia que educação é conseguida com sofrimento, pois é um esforço para adquirir algo exterior a nós mesmos. Logo, ações de adaptação são necessárias para que o aluno alcance seu desenvolvimento (Aristóteles, Vygotsky).

(Bons) professores são exigentes com seu próprio aprendizado. Estão sempre lendo e compartilhando. E a mesma cobrança que faz a si mesmo é a lançada ao seu aluno. Isso faz com que não aceite qualquer resposta e seja considerado muito rígido para tempos atuais.

Precisamos de bons professores. O que sabe estudar, sabe ensinar e sabe cobrar. Só assim, poderemos sonhar um Brasil com índices diferentes dos que foram apresentados anteriormente.

Referências



Obrigado pela visita e comentários.

"LOUCURA É TER AÇÕES QUE NÃO ESTIMULAM A CRIATIVIDADE E ESPERAR POR VERDADEIRAS OBRAS DE ARTE!" 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

ENEM 2018: Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet



O tema do Enem 2018 apresenta-se não como um assunto jamais visto ou pensado, pois vem ao encontro do momento consumista da humanidade pela internet. O acesso à rede não é universal, mas vem crescendo a cada ano no Brasil e no mundo. A proposta ‘Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet’ fomenta a discussão acerca da navegação pela rede e o conteúdo gerado nela; trazendo à baila reflexões sobre confiança nas fontes desses conteúdos e segurança das informações, tornando o tema complexo. "Para que o aluno garanta uma nota elevada, é importante que ele trabalhe as quatro palavras centrais da frase tema: manipulação, comportamento, usuário e internet", disse Maria Catarina Rabelo Bozio, coordenadora de Redação do Colégio Poliedro.

A partir da fala da professora Bozio, demonstra-se a complexidade deste tema para o candidato ao abordar cada elemento citado pela docente, pois exige do redator bagagem cultural e de experiência para fazer as relações do cotidiano com a defesa argumentativa adequada. As relações entre manipulação, comportamento e usuário exigem recursos sociais (teóricos e práticos), que muitas vezes não são dominados pelos estudantes secundaristas; já que os estudos da psicologia social e da linguística sobre manipulação não são publicados amplamente no gênero Divulgação Científica, tornando seu conhecimento menos aprofundado pelo grande público. 


Por se tratar de um tema abrangente, muitas vertentes podem surgir para a construção de um raciocínio; dessa feita, o mais difícil seria o candidato escolher por qual viés entraria no texto, pois falar de todas essas questões com qualidade em 30 linhas é um tanto questionável, considerando que cada ponto deva ser mencionado e justificado. O professor de redação do Sistema de Ensino pH, Thiago Braga, do Rio de Janeiro, diz: "Ele (o tema) pode estar voltado para política, consumo ou comportamento”. Portanto, o redator deve ter clara qual é a sua ideia central e quais pontos deve construir argumentos, considerando os elementos presentes na proposta. Há certa liberdade para escolher o ponto central do raciocínio, como propagandas pelo Facebook ou Google, mudanças de atitude ou gosto musical, "fake news" ou dados apresentados fora de contexto. 


Quanto aos dados apresentados na internet, deve-se lembrar que as informações que estão disponíveis podem ser mascaradas nem sempre com mentiras, mas com recortes ou levando a interpretações duvidosas. As "fake news" não são o ponto principal, mas são também produto dessa manipulação quando a linha de raciocínio exigir, e se o redator quiser abordar essa ação tão presente no Brasil e no Mundo, principalmente pelo viés político. Para esse tipo de abordagem, argumentos de autoridade seriam menos interessante do que os argumentos de raciocínio lógico e por comparação com breves citações. Dessa feita, o raciocínio desenvolvido levaria para esse lado da construção do conhecimento falho ou manco por interesse do manipulador, questionando a veracidade da informação.


Para a proposta de intervenção, todo cuidado é pouco, porque as relações desenvolvidas no texto como um todo devem ser contempladas neste instante a fim de apontar uma ação social efetiva sem desrespeitar os direitos humanos. Para a professora Bozio (já citada anteriormente): "No caso das propostas de intervenção que renderiam a nota zero na competência 5, podemos considerar qualquer defesa ao fim da liberdade de expressão, censura ou violação dos direitos básicos do cidadão como soluções para o problema.” Logo, caminhos como a busca por outras fontes de conhecimento (livros e revistas físicas), comparações de informações em mais de uma plataforma online (mais de 3 sites), buscas em sites que apresentam confiabilidade comprovada são exemplos para serem desenvolvidos na proposta de intervenção. 


A educação crítica e eficaz no pensamento racional, filosófico e social aparece como pano de fundo nesta proposta; pois povo culto e crítico torna-se mais difícil de ser manipulado e, consequentemente, mais exigente quanto à sua própria liberdade. O ENEM tem trazido nossas próprias feridas e chagas, que foram escondidas por décadas à sombra dos bons costumes e do politicamente correto. Questões como a ignorância, racismo, violência contra a mulher, intolerância religiosa são o reflexo do que o brasileiro, infelizmente, traz em sua conduta diária. Esses temas, bem como o interior da prova deste ano (questões sobre minorias), estão alertando sobre os problemas que nossa sociedade ainda apresentam, revelando toda nossa fragilidade diante dos direitos que todos devemos ter, como respeito.



Victor Hugo Vasconcellos
05/11/18
1:32 am

Referência das falas dos Professores