quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Marighella - Uma questão catóptrica

 Olá! Como estão?


Hoje, um texto acerca do filme Marighella (censurado pelo governo brasileiro e apenas liberado recentemente para ser exibido nos cinemas).


O filme tem problemas; a história, não. Começo por aí a discussão, pois se trata de um filme histórico. Marighella foi nomeado o inimigo número 1 da ditadura militar brasileira (1964-1985). Isso, o filme diz; mas não mostra de fato quem foi essa persona embemática.,


O título desta crônica já nos levanta uma questão conhecida para quem sabe da história de Marighella. A questão Catóptrica foi o tema sobe o qual Marighella teve de fazer uma prova em sua época escolar, avaliação cuja resposta foi elaborada em versos. Marighella sempre gostou de versos, e essa avaliação ficou exposta em seu colégio até o início do golpe militar. Ah, Catóptrica é a parte da física que trata da reflexão da luz.


Esse filme é a estreia de Wagner Moura como diretor. Gosto de seus trabalhos como ator e, confesso, que também gostei de seu trabalho como diretor. Entretanto, percebi alguns "buracos" na trama e também senti falta de elementos históricos. O filme apresenta boas cenas de ação, boa fotografia e uma sequencia narrativa agradável. A questão central para mim é que se trata de um personagem histórico; logo, a licença poética, recortes e desenvolvimento de alguns personagens deixaram a desejar.


O personagem Marighella é apresentado de forma muito superficial. Ele foi mais do que um guerrilheiro (o que não é pouca coisa). Foi deputado, escritor, poeta, alguém que era ouvido e tinha o que falar. Pouco se falou sobre a vida de Marighella fora da guerrilha. Nessa época, houve perseguição não só ao Jango, Brizola e Jânio; mas também a intelectuais como Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, Celso Furtado e Darcy Ribeiro. A primeira prisão de Carlos Marighella ocorreu nessas circunstâncias, além de ser membro do Partido Comunista do Brasil.


Seguindo nessa perspectiva, a imagem da ditadura no filme foi abrandada, a meu ver, pois todas as manifestações apresentadas giram em torno do protagonista do longa. E a ditadura foi muito mais intensa e cruel do que o filme (pouco) mostrou. Os recortes não deram conta de aprofundar o desenvolvimento dos personagens. Os companheiros de Marighella existiram na vida real e fizeram parte da revolução. Não é a história de um homem só.


Ausência de nomes reais em um filme histórico torna-se um problema. O Delegado Fleury (Sérgio Paranhos Fleury), por exemplo, antagonista do filme, não é apresentado por seu nome real, e sim, como Lucio. Outro nome importante é  Joaquim Câmara Ferreira, um companheiro próximo de luta de Marighella e revolucionário morto pela Ditadura Militar.


Uma cena da qual gostei muito, mas estava deslocada na história, foi o diálogo entre o frei e o Marighella acerca da cor de Jesus Cristo. A questão do Cristo ser branco serve aos interesses de colonização não só dos corpos, mas também das mentes das colônias. Quanto mais o colonizador branco europeu se parecer com o deus encarnado do cristianismo melhor. Uma crítica importante, mas que nada acrescentou ao enredo do longa.


Pontos muito bem desenvolvidos: a criação da Ação libertadora nacional; a perseguição a todos os membros da ALN; a morte de Marighella (de forma covarde); e o depoimento do delegado sobre a morte do protagonista. 


Elogio o roteiro de Felipe Braga, Mário Magalhães e Wagner Moura pela sequência da história, de diálogos que justificam as cenas. Reitero o problema dos recortes, mesmo que a montagem tenha sido benfeita.  


Enfim, uma experiência interessante ver o filme de estreia (como diretor) do Wagner Moura, atiçar um pouco a curiosidade sobre essa personagem histórica que foi Marighella e também, claro, relembrar quão terrível foram os anos de chumbo aqui no Brasil. Não Passarão. Não voltará! #DitaduraNuncaMais


Obrigado pela visita e pelos comentários.


"A VERDADE SEMPRE APARECE, PODE DEMORAR O TEMPO QUE FOR. A LOUCURA ANDA JUNTO COM OS MAIS SINCEROS ATOS FALHOS."

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Não Olhe para Cima" (Don´t look up).

Olá, tudo bem? Como estão?

Hoje, falarei sobre o filme "Não Olhe para Cima" (Don´t look up).

Filme que foi divulgado como um suposto pastiche, uma paródia, uma encenação sarcástica e/ou uma comédia besteirol. O filme é muito mais do que isso! 

Fiquei surpreso com o resultado! Sim, o filme é muito bom! Claro, se houver a contextualização das críticas transvestidas de besteirol estadunidense.

Bem, vamos à sinopse.
Basicamente, a história gira em torno de dois astrônomos que descobrem a rota de um cometa que se chocará com a Terra em torno de 6 meses.

Nada de novo. Nada especial. Entretanto, o arco da divulgação até o desenrolar para "resolver" o problema nos traz as peripécias de uma tragicomédia. 

Digo isso, por conta das personagens caricatas, exageros na narrativa, comportamentos que nos fazem duvidar da verossimilhança. Apenas duvidar, pois quando olhamos o nosso mundo, ficamos na dúvida qual é o teatro mais perverso.

Vou apresentar os pontos que mais me chamaram a atenção.

Os dois astrônomos são Randall Mindy (professor e orientador de doutorado) e sua orientanda Kate Dibiasky. Ela descobriu o cometa cujo nome é em sua homenagem - Cometa Dibiasky.

Ele não é um pesquisador muito famoso (não publica artigos há um tempo) bem como a sua universidade. De qualquer forma, com a ajuda do doutor Oglethorpe, da NASA, conseguem uma reunião com a presidente dos EUA, Orlean.

São recebidos pelo chefe de gabinete, Jason Orlean, que só está lá por ser filho da presidente. Seu modo de ser é caricato e confirma o nepotismo. Alguma semelhança, aqui no Brasil, com a indicação de um certo alguém à embaixada brasileira nos EUA?

Enquanto esperam para falar com a presidente, o General Themes lhes oferece uns lanches e águas dizendo que custaram uma fortuna. Mindy paga ao general uma razoável quantia pelos lanches. No entanto, descobre-se depois que os lanches eram gratuitos. Militar desonesto? Que heresia!

A presidente faz pouco caso do meteoro. Diz que vai consultar outros especialistas, pois não confiam no professor e sua doutoranda devido ao baixo prestígio de sua universidade. Além do fato de que sua preocupação maior é a campanha de reeleição. Para variar, a política em primeiro lugar, depois o bem estar do povo (no caso, o planeta). Outra crítica bem pertinente é a valorização do prestígio da universidade acima do próprio estudo apresentado. Aqui nada é superficial, ainda bem!

Após o "vazamento" da questão do meteoro, há perseguição aos pesquisadores. Assunto de Estado, mas com o qual o Estado não quer se preocupar. Uma censura pela controle.

No programa de televisão, há uma tremenda audiência com o fim de relacionamento de uma cantora famosa. As redes sociais se movimentaram muito mais sobre esse tema do que com a notícia do cometa.

Mindy e Kate como convidados ficam desconfortáveis com o descaso que a notícia do fim do mundo sofreu. A mídia fazendo chacota e buscando alta audiência com o teatro midiático. Fale-se, inclusive, sobre treinamento midiático para o professor Mindy. Kate acaba gritando ao vivo, pois se trata de uma assunto sério. Acaba sofrendo ataques nas redes sociais, sendo chamada de louca por vários internautas.

A polarização emerge. De um lado, pessoas que não acreditam que o meteoro exista; do outro, pessoas que acreditam. Os jornalistas Brie Evantee e Jack Breemer não fazem questão de levar o assunto a sério. Teatro na mídia? Que absurdo!

Outro ponto que critica a superficialidade da sociedade é o momento em que Mindy ganha o apelido de cientista mais bonito. Ninguém ouve o que ele tem a dizer, mas apenas focam em sua aparência. Isso realmente não tem nada a ver com o mundo em que vivemos. Quanta criatividade, não?

Mesmo Mindy, que apresenta uma imagem caricata de um pesquisador nerd e desajeitado, acaba "abraçando" a fama e se envolvendo em um caso adúltero com Brie. Só não terminou seu casamento, pois sua esposa o havia traído no início do relacionamento. Humanos sendo humanos...

A presidente estadunidense viu uma oportunidade política em salvar o planeta. Quando parece que o cometa será explodido e a espécie humana salva, surge o magnata Peter Isherwell, que resolve tirar proveito do meteoro. Sua equipe descobriu que havia metais preciosos na composição do meteoro. A operação é interrompida e o empresário assume a responsabilidade de explorar o cometa e salvar o planeta. O que é interessante nesse ponto é o discurso de que essa garimpagem iria acabar com a fome e as desigualdades sociais, pois os metais valiam trilhões de dólares. Caridade? Sei.

Obviamente, o plano não funciona e a humanidade é extinta. Os mais ricos tentam fugir do planeta em cápsulas de criogenia. 

A extinção humana ocorreu por vários motivos que o filme aponta:  interesses pessoais, os ricos com poder de decisão, negacionistas, ignorância do povo, valores superficiais. Um filme que beira o ridículo por parecer demais com o que vivemos no mundo. Isso não só nos EUA como também aqui no Brasil.

Aristóteles, em sua Poética Clássica, diria que se trata de uma comédia cujo riso do ridículo despertaria a purificação do espírito - ou catarse. E por meio desse riso, veríamos em nós mesmos os defeitos apresentados na trama. O fim terapêutico é a eliminação desses defeitos para não nos sentirmos ridículos.

Mas acredito ainda que ações de pessoas questionando os cientistas que apresentam fatos comprovando algo como, por exemplo, a queda de um meteoro na Terra. Algo muito parecido com o que passamos com os questionamentos em relação à eficácia da vacina. 

Enfim, um filme louco que se espelha na loucura humana, que prefere garimpar um meteoro em busca de dinheiro mesmo que corra o risco de ser extinta. Alguém duvida que isso poderia ser verdade? Eu, não!

Fiquem bem!

"É MELHOR PERDER A VIDA DO QUE A LIBERDADE. ISSO É IGNORÂNCIA, NÃO LOUCURA."