Só a educação não salvará o Brasil
A educação não é saída para que o Brasil torne-se um país desenvolvido, com distribuição de renda adequada, com a diminuição da violência e menor segregação social. Esta é a minha tese: um país não vai se livrar das amarras que o sufoca utilizando-se dessas mesmas amarras.
Para tornar essa tese numa explicação palatável, faz-se necessário explicar separadamente os pilares que a sustentam. Os pilares são: a) Brasil como país capitalista periférico; b) Ditadura burguesa brasileira; c) Educação como reprodução; e d) Reforma do Ensino Médio.
Após explicitar os pilares, uma conclusão materialista irá detalhar porque a educação brasileira não é a condição para a melhoria das condições de vida de sua continental população.
a) Brasil como país capitalista periférico
Embora o Brasil seja um país continental, com alto PIB (figura entre os 10 maiores PIBs do mundo, em 2022), serve a interesses dos países mais ricos e industrializados.
Os países desenvolvidos apresentam uma posição imperialista em relação aos que não são desenvolvidos. Dessa forma, a exploração da mão-de-obra do povo ocorre por intermédio das classes dominantes dos países menos desenvolvidos, por meio de acordos que assujeitam ainda mais esses Estados.
Os países imperialistas gozam de certa estrutura social, uns mais, outros menos; mas que não se comparam com as abissais desigualdades que ocorrem nos países subjugados.
Mas para cada país desenvolvido, há outros países "pobres" para sustentar essa riqueza. Não é um argumento de soma zero, mas é um sistema em que a exploração ocorre, dificultando a ascensão desses países como um todo, gerando riqueza apenas para a classe dominante, comprada sua apatia em relação ao seu próprio povo.
O Brasil é um caso de país periférico, com sua burguesia (Elite do Atraso - segundo Jessé Souza) vendida a esses acordos de manutenção de mão-de-obra barata e nula industrialização do país, latifúndio do mundo (o que enriquece o agronegócio) e cada vez mais entregando nossas riquezas a preços vergonhosos.
b) Ditadura Burguesa Brasileira
Seguindo a linha do item anterior, se o Brasil apresenta uma classe dominante fechada com seus próprios interesses, vive-se a ditadura da burguesia mascarada de democracia. Recuso-me a chamar de elite a classe dominante do Brasil e concordo com Emicida (rapper brasileiro) quando diz que a elite de algo remete ao melhor que aquele conjunto pode oferecer, e a nossa "elite" só tem dinheiro.
Na Folha, em 13 de fevereiro de 2014, Eduardo Giannetti diz que "Nossa "nova classe média" ascendeu ao consumo, mas não ascendeu à cidadania". Dessa forma, a classe burguesa do Brasil (1% da população) só se importa com seus negócios mesmo que precise "esfolar" seu próprio povo. Os outros 9% (a classe média brasileira) embora sejam trabalhadores "plus", com melhores salários e condições de vida, compram a ideia dessa burguesia, achando-se similares a eles. E com isso, também dificultam a vida dos 90% restantes da massa do Brasil.
Os acordos são para manter a classe dominante como classe dominante. As decisões passam por aqueles que fazem a gestão do país e os altos cargos das empresas. 10% da população é mais do qe suficiente para manter o Brasil estacionado, gerando riqueza aos mais ricos e oprimindo o acesso dos mais pobres.
c) Educação como reprodução
Bourdieu e Passeron publicaram a obra A Reprodução no ano de 1970 e analisa o sistema educacional francês. Essa obra chegou ao Brasil em 1975 e foi base para a obra Escola e Democracia, do professor Demerval Saviani, em 1983.
Essas obras analisam o sistema escolar de seus respectivos países. Saviani, apoiado em Bourdieu, descreve a reprodução dos valores burgueses na educação brasileira. Dessa forma, a educação é um instrumento político de reprodução e de sustentação dos interesses da classe dominante.
O sistema educacional do Brasil impõe aos estudantes os valores, a cultura, o modo de pensar e a ideologia burguesa. Dessa forma, a educação, mesmo que não fosse sucateada, continuaria a reforçar os valores de uma classe neoliberal, com Estado mínimo, a favor de privatizações e contra assistencialismos. O mais paradoxal é que, num país em que apenas 10% da população recebe um salário acima de R$ 3.500,00, haja uma grande maioria do povo defendendo esses valores dos mais ricos. Isso ocorre por conta dessa imputação ideológica.
A reprodução incentiva a competição e lança a culpa do fracasso sobre o próprio indivíduo. Em 2022, o Brasil conta com 33 milhões de pessoas passando fome. Em 2016 eram 7,5 milhões, no governo do PT. Logo, a educação é a maneira pela qual, é lançada a desunião entre o povo, reforçando suas amarras.
d) Reforma do Ensino Médio
A reforma do Ensino Médio torna-se palpável os argumentos sobre a escola ideológica. A reforma foi feita a partir da lei 13.415/2017, sob a presidência de Michel Temer (após o golpe sobre a então presidente Dilma Rousseff).
Michel Temer governou dois anos representando os interesses da burguesia. Fazendo a reforma trabalhista, mudando a política de preços da Petrobrás e encaminhando a reforma da previdência. O Brasil pulou de 7,5 milhões de pessoas passando fome para 10 milhões, em dois anos.
A reforma do Ensino Médio ocorreu sem diálogo com a sociedade. Professores e alunos foram excluídos do projeto, que ocorreu de forma impositiva, em forma de lei.
Para resumir, a reforma prevê diminuição da carga horária dos conteúdos básicos para 1.800 horas em todo o Ensino Médio (de acordo com a BNCC - Base Nacional Curricular Comum) para acrescentar 1.400 horas de itinerários formativos. Essas 1.400 horas, na rede pública (que atende mais de 75% dos alunos brasileiros) seriam ministrados em regime de escola integral. Em escolas precarizadas, sem professores e sem o mínimo para virarem do dia para a noite uma escola integral. O Novo Ensino Médio começou este ano (2022) e já apresentam as dificuldades e as falácias de poder escolher sua área de atuação. Muitas escolas não conseguem oferecer um intinerário de forma adequada, quanto mais oferecer opções.
Outro ponto sobre a escola pública é que muitos desses itinerários estão vinculados à formação de obra-de-obra barata por meio de parcerias privadas para ministrarem cursos profissionalizantes.
As escolas privadas e as escolas que recebem a classe burguesa irão adequar sua estrutura e horários para incluir além da currículo comum, disciplinas como educação financeira, empreendedorismo, debates, ciências forenses, astronomia etc. Reforçando novamente o ambiente de competição e mantendo suas posições privilegiadas.
Essa reforma afasta ainda mais o jovem da periferia de disputar o vestibular com condições de serem aprovados, pois terão menos conteúdos do que a grade anterior da reforma.
Conclusão materialista
Os quatro pilares estruturam a visão acerca da realidade brasileira, pois se trata de um país de periferia governado por uma classe que visa aos seus próprios interesses, minando o desenvolvimento do Estado do Brasil.
A educação sempre foi eleita como a solução para um país menos desigual e com equidade social, além de se desenvolver e de se industrializar. Neste artigo mostro que isso não será possível, pois:
1) a educação reproduz os valores burgueses, isto é, a manutenção do poder está assegurado pela ideologia dominante em que fortalece a desunião entre a classe trabalhadora (90% da população); e
2) Na mentalidade capitalista, o objetivo é o acúmulo de capital a partir da exploração do outro. Todos os dias, valores são gerados nos sistemas de produção, mas que ficam com a menor parte da população (1%), pois esse é o modelo vigente. Mesmo que todos da classe trabalhadora se esforçassem (no mito da meritocracia), não alcançariam postos elevados, pois a visão escravagista da burguesia brasileira (Jessé Souza) não gera novos postos nem industrializa o país. Viraríamos o país dos proletariados intelectuais.
Desse modo, a grande questão a ser combatida não é a exigência de uma educação burguesa melhor, mas uma educação libertadora (o que é uma utopia) para transformarmos o sistema vigente, a ideologia dominante. Sem romper com essa lógica subserviente, o Brasil sempre será o país desigual e explorado pelos imperialistas.
Referências
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução. 3.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
CNN Brasil.
Economia Uol.
Eduardo Giannetti. Igualdade de quê? Folha. 13 de fev. de 2014.
Jessé Souza. A elite do atraso. Editora Leya.
Lei 3.415
Obrigado pela visita e pelos comentários.
"É DE UMA LOUCURA TOTAL ESSA VISÃO DE FAVORECER APENAS UMA PARCELA ENQUANTO A OUTRA PASSA FOME. É LUXO E LIXO. MAIS LIXO. MUITO LIXO NO PALÁCIO."
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