segunda-feira, 17 de abril de 2023

Uma explicação sobre o texto de 09 de março de 2023

 Olá, tudo bem?


Antes de mais nada, preciso explicar a razão deste texto. 

É um esclarecimento da crônica do dia 9 de março de 2023, cujo título é Galego: Lingua nai de toda lusofonía.


Devo agradecer, antes de tudo, ao amigo Guel de Miranda, que me ofereceu críticas muito construtivas ao referido escrito. A partir dessas críticas, pensei em escrever esta nova crônica argumentativa (não a classifico como um artigo por conta de estrutura e rigor).


Alguns pontos devem ser explorados a seguir: 

a) Sou brasileiro;

b) Questão filológica e política;

c) Questão do nacionalismo galego;

d) Minha posição.


Sou brasileiro


Por que esse ponto é relevante para este texto? Simples. Minha formação toda foi no Brasil até este momento. E mal sabia da existência da Galiza, da situação linguística e política de seu povo. Vim para a península ibérica para estudar in loco. E claro, não só pelos livros, mas com os amigos galegos e portugueses.

O fato de eu morar há pouco tempo na Galiza (Corunha) não me isenta de eventuais erros ou falhas em minhas manifestações. Apenas quero dizer que estou aberto a críticas, sugestões de leituras, de passeios e conversas. Ninguém melhor do que a gente que vive aqui para me dar essas coordenadas. 


Questão filológica e política


Neste ponto que talvez eu não tenha me expressado bem. Há uma diferença muito grande entre as discussões filológicas e políticas quando se trata de Estados com mais de uma língua oficial, principalmente quando não há equidade entre elas.

Primeiro problema que não ficou claro no meu texto anterior está na seguinte passagem:

"O galego é a lingua materna de todas as variantes do portugués. A lingua hoxe de todas as variantes non se chama galego por razóns políticas."

Dessa forma, afirmo que a língua galega é mãe do português. Essa afirmação não foi no eixo filológico, mas sim, numa provocação nacionalista. Do ponto de vista filológico, essa afirmação não se sustenta. Vou apresentar dois cenários:

I - O galego e o português são línguas diferentes. Dessa forma, as duas têm uma origem comum desde o Reino Suevo, passando pela dominação dos Visigodos,tornando-se o Reino da Galiza (em referência à Galaecia). Com a independência de Portugal, houve um distanciamento da variante do sul (português) que se desenvolveu de forma autônoma, principalmente pelo controle linguístico do novo Estado e a preocupação do fortalecimento da identidade linguística. Já a Galiza , que esteve sob a tutela de Castela cuja língua é o castelhano (castelán), não pôde ter esse controle, pois não tinha a língua de governo, embora o galego fosse respeitado como língua de cultura. Outro ponto importante é que as línguas oficiais (antes vernáculos - ou simplesmente linguagem) foram se oficializar séculos a frente da independência de Portugal mesmo, que já houvesse a preocupação de se diferenciar da variante do norte. 

Então, as duas línguas surgiram juntas, o que impossilita de uma ser mãe da outra. Com o passar do tempo, por questões políticas, elas se desenvolveram de maneiras distintas.   

II - o galego e o português são a mesma língua. Se são a mesma língua, estou falando de uma unidade linguística como é o português do Brasil, português de Angola e de todos os países para os quais Portugal levou a "última flor do lácio".  Sendo assim, não há como se falar de parentesco ou ascendência. Não há como ser mãe / pai de si mesmo. 

A questão política determina muitas vezes o status de uma língua. Isto é, se é um dialeto, uma língua, uma variante ou uma língua autônoma. Existem diversos exemplos de línguas que recebem seu status de acordo com o poder econômico do país que as denomina. Não vou explicar caso a caso, mas uma pesquisa, mesmo que no google, trará respostas interessantes (ainda que superficiais) sobre o cabo-verdiano; norueguês e dinamarquês; luxemburguês; romeno e a Moldávia; as línguas da Bélgica, as línguas da Africa do Sul, as línguas minoritárias na Península Ibérica e da Alemanha etc.   

O que nos serve neste momento é que a questão atual da separação da Língua Portuguesa do Galego (tidas como línguas irmãs) deve-se a questões políticas e nada mais do que isso. São escolhas a partir dos estudos apresentados e dos postulados que sao seguidos. Do mesmo modo, o que mantém a unidade Lusófona pelo mundo é a questão política, embora haja estudos que já discutam que o Brasil fala brasileiro, e não mais português. Não estou defendendo aqui um ou outro ponto, mas demonstrando que as decisões são tomadas a partir de um complexo sistema de escolhas.


Questão do nacionalismo galego


Considerando as questões anteriores, de onde surgiu a expressão "Galego é mãe de toda a lusofonia"? Bem, a ideia não era distocer a história, mas apenas fazer uma provocação retórica. Se Portugal tornou-se independente falando a mesma língua da Galiza e depois batizou essa língua com o nome da nação independente, levando-a para o mundo afora, por que não poderia "sugerir" dizendo que a língua batizada posteriormente é filha da Galiza?

Esse discurso pode ser aproximado do nacionalismo galego. Mas falo aqui de um nacionalismo que distorce a história se fosse o caso. Não era a impressão que eu gostaria de ter passado. É como se fosse uma resposta aos portugueses que defendem que Portugal é oriundo da Lusitânia e não "deve nada" à Galiza. Mas dizer que Portugal deve algo à Galiza também é um nacionalismo cego. 

Grande parte dos galegos se acham irmãos dos portugueses e vice-versa (pelo menos os portugueses do norte). Há uma boa relação entre os povos. E que continue assim.

Nenhum extremismo é interessante para discussões dessa natureza. Em verdade, em nenhuma situação. Tive de explicar "a piada" (de maneira análoga), mas se só eu dei ridada, deixa de ser piada. Logo, reconheço que não me expressei bem no texto já citado.


Minha posição


Diante do exposto, claro que tenho uma posição. E creio que está mais do que evidente, entretanto, farei questão de explicá-la. Minha posição como investigador é que a língua portuguesa e o galego, hoje línguas independentes (embora irmãs), são a mesma língua. Claro que há diferenças, que não são maiores do que as diferenças entre as variantes do inglês que correm o mundo ou do próprio português falado em 4 continentes. Claro que a língua é a marca cultural de um povo e vai se moldar de acordo com a realidade local, o que não impede a comunicação com outras regiões que tenham a mesma estrutura linguísitica.

A situação da perda de falantes do galego, na Galiza, incomoda-me muito, pois é uma região que preserva muitos traços do período galego-português. Faço defesa do galego, mas não quero distorcer a história ou fazer falsas dissertações. Simbólica (e historicamente), a região da Galaecia é o berço do romance que originou o galego e o português (na atual divisão) ou a língua que é falada por mais de 250 milhões de pessoas. O português, de fato, é o galego que surgiu no norte e desceu para o sul. De defender essa unidade, eu não abro mão. Viva Galego! Viva Galiza!


Obrigado pela visita e pelos comentários.


"CADA UM VÊ COM OS OLHOS QUE TEM E COM A LOUCURA QUE POSSUI!"

Um comentário:


  1. Esta parvada de associar algo maternal na Galiza com a Lusitânia, mas ao mesmo negar a existência desta é algo que me desassossega por ser tendenciosa de uma outra negativa subliminar, a da lingua portuguesa falada, escrita e materna no Brasil desde há 523 anos.
    O senhor Vasconcellos surge agora a corrigir o erro infantil inicial, mas quer novamente insistir no berço de dois irmãos gémeos. Já não a Galiza inicial nai, mas agora a Gallaecia.
    Obrigado Guel de Miranda pela sugestão dada ao senhor Vasconcellos.
    Mas entretanto, e não vá o terreno galego fugir dos pés do senhor Vasconcellos, nota-se uma condescendência para com a língua portuguesa materna, porque evidentemente é a única que o senhor Vasconcellos conhece desde que nasceu.
    Mesmo assim, o senhor Vasconcellos não abdica em afirmar que o português nasceu exclusivamente no Norte, não precisando onde, e que depois desce (escorrega) para o Sul, que na sua sapiência e douta inteligência não sabia falar, escrever ou soletrar qualquer tipo de linguagem que se pudesse sequer aproximar do vernáculo galego, ou galego-português exclusivo desse Norte berço galaico über alles.
    Eu já tentei explicar aos galeguistas nacional-socialistas do Reino, como a senhora Margarida Bermudes Vasques, que num reino Suevo de 585, dito Reino da Gallaecia ou na parte lucense corunhesa, Reino da Galiza, que existem 4 importantes dioceses pertencentes ao conventus scalabitano da Lusitânia e que são constantemente citadas nos anais da história medieval como Coimbra, Lamego, Viseu e Idanha. Desde os Suevos até chegados ao ano da confirmação do reino de Portugal de 1179.
    E parecendo que não, neste espaço geográfico, lusitano por sinal da história geográfica e cronológica, também se falava, escrevia e soletrava uma linguagem, que tudo indica era tão percebida no Norte, como no Sul e no Leste, não sendo contudo galego, mirandês ou asturo-leonês ou castelão.
    Como nas crónicas medievais tanto muçulmanas como cristãs esse território era denominado como Burtugali, Portugal, Portugalensis Territorium, Portugaliae, penso que em vez de trazer uma parvada galego-brasileira de Lusofonia, seria muito mais interessante e justo chamar à linguagem desse território de Português.
    E como Portucale a norte do Douro é Porto e é Gallaecia, Portugal a sul do Douro é Gaia e Coimbra e ficam na Lusitânia.
    Mais justiça para denominar a linguaige comum como Português.
    Claro que isso vai criar desconforto aos galegos da Galiza corunhesa ou compostelana.
    Mas para que os galegos se sintam mais confortáveis com a sua língua, que a falem primeiro, acordem com ela na cabeça, a escrevam e a espalhem pelo mundo.
    Quando isso acontecer, eu estou cá a aplaudir.

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