O tema do Enem 2018 apresenta-se não como um assunto jamais visto ou pensado, pois vem ao encontro do momento consumista da humanidade pela internet. O acesso à rede não é universal, mas vem crescendo a cada ano no Brasil e no mundo. A proposta ‘Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet’ fomenta a discussão acerca da navegação pela rede e o conteúdo gerado nela; trazendo à baila reflexões sobre confiança nas fontes desses conteúdos e segurança das informações, tornando o tema complexo. "Para que o aluno garanta uma nota elevada, é importante que ele trabalhe as quatro palavras centrais da frase tema: manipulação, comportamento, usuário e internet", disse Maria Catarina Rabelo Bozio, coordenadora de Redação do Colégio Poliedro.
A partir da fala da professora Bozio, demonstra-se a complexidade deste tema para o candidato ao abordar cada elemento citado pela docente, pois exige do redator bagagem cultural e de experiência para fazer as relações do cotidiano com a defesa argumentativa adequada. As relações entre manipulação, comportamento e usuário exigem recursos sociais (teóricos e práticos), que muitas vezes não são dominados pelos estudantes secundaristas; já que os estudos da psicologia social e da linguística sobre manipulação não são publicados amplamente no gênero Divulgação Científica, tornando seu conhecimento menos aprofundado pelo grande público.
Por se tratar de um tema abrangente, muitas vertentes podem surgir para a construção de um raciocínio; dessa feita, o mais difícil seria o candidato escolher por qual viés entraria no texto, pois falar de todas essas questões com qualidade em 30 linhas é um tanto questionável, considerando que cada ponto deva ser mencionado e justificado. O professor de redação do Sistema de Ensino pH, Thiago Braga, do Rio de Janeiro, diz: "Ele (o tema) pode estar voltado para política, consumo ou comportamento”. Portanto, o redator deve ter clara qual é a sua ideia central e quais pontos deve construir argumentos, considerando os elementos presentes na proposta. Há certa liberdade para escolher o ponto central do raciocínio, como propagandas pelo Facebook ou Google, mudanças de atitude ou gosto musical, "fake news" ou dados apresentados fora de contexto.
Quanto aos dados apresentados na internet, deve-se lembrar que as informações que estão disponíveis podem ser mascaradas nem sempre com mentiras, mas com recortes ou levando a interpretações duvidosas. As "fake news" não são o ponto principal, mas são também produto dessa manipulação quando a linha de raciocínio exigir, e se o redator quiser abordar essa ação tão presente no Brasil e no Mundo, principalmente pelo viés político. Para esse tipo de abordagem, argumentos de autoridade seriam menos interessante do que os argumentos de raciocínio lógico e por comparação com breves citações. Dessa feita, o raciocínio desenvolvido levaria para esse lado da construção do conhecimento falho ou manco por interesse do manipulador, questionando a veracidade da informação.
Para a proposta de intervenção, todo cuidado é pouco, porque as relações desenvolvidas no texto como um todo devem ser contempladas neste instante a fim de apontar uma ação social efetiva sem desrespeitar os direitos humanos. Para a professora Bozio (já citada anteriormente): "No caso das propostas de intervenção que renderiam a nota zero na competência 5, podemos considerar qualquer defesa ao fim da liberdade de expressão, censura ou violação dos direitos básicos do cidadão como soluções para o problema.” Logo, caminhos como a busca por outras fontes de conhecimento (livros e revistas físicas), comparações de informações em mais de uma plataforma online (mais de 3 sites), buscas em sites que apresentam confiabilidade comprovada são exemplos para serem desenvolvidos na proposta de intervenção.
A educação crítica e eficaz no pensamento racional, filosófico e social aparece como pano de fundo nesta proposta; pois povo culto e crítico torna-se mais difícil de ser manipulado e, consequentemente, mais exigente quanto à sua própria liberdade. O ENEM tem trazido nossas próprias feridas e chagas, que foram escondidas por décadas à sombra dos bons costumes e do politicamente correto. Questões como a ignorância, racismo, violência contra a mulher, intolerância religiosa são o reflexo do que o brasileiro, infelizmente, traz em sua conduta diária. Esses temas, bem como o interior da prova deste ano (questões sobre minorias), estão alertando sobre os problemas que nossa sociedade ainda apresentam, revelando toda nossa fragilidade diante dos direitos que todos devemos ter, como respeito.
05/11/18
1:32 am
Referência das falas dos Professores
Boa reflexão. O tema pode ser abordado de diversas maneiras, mas se não culminar em respeito o candidato zera.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário Pati. Concordo contigo, o respeito é um pilar imprescindível e sua falta é uma caminho à nota zero.
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